A Guerra Cultural aos Animes e Mangás – Parte 7 – A Perspectiva Sobre Animes Animes e mangás são as novas commodities do mundo!

Josué Fraga Costa
(Redator)

Anime United
©Anime United

Em reportagem da Forbes Japan, conduzida por Fumiko Iwatsubo, com Hideaki Anno (Neon Genesis Evangelion) e Takashi Yamazaki (Godzilla 1.0), lançada no dia 24 de dezembro de 2025, gerou uma leva ampla de debates no setor cultural, e que vale dar um pitaco de leve sobre uma perspectiva ainda não abordada — os japoneses estão de olho no mercado ocidental — mais do que você possa imaginar!

O valor brutal da cultura nipônica

A matéria começa mostrando um dado impressionante da relevância que os animes e mangás ganharam — e que vão para além do mero detalhe cultural. “As vendas internacionais de conteúdo do Japão quase triplicaram nos últimos 10 anos, atingindo 5,8 trilhões de ienes em 2023 (US$ 39,7 bilhões), superando o valor de exportação das indústrias de semicondutores e aço.¹ Em meu livro, eu exemplifico o que é um ecossistema pleno da cultura, onde há linhas logísticas e dinâmicas econômicas que tendem a impactar de forma direta na vida de muitas pessoas, mesmo que de forma não óbvia ao grande público. ¹O senso de crise de Hideaki Anno e Takashi Yamazaki e o futuro do entretenimento e da cultura no Japão

Você tem ideia de que animações e material literário, superaram a indústria de aço e semicondutores de uma nação? O aço está em seu smartphone agora mesmo, junto a um semicondutor. Do aço, se deriva o alumínio, o qual todo veículo usa em seu chassi e carroceria, e em outros componentes.

Está na sua casa em várias aplicações; como suas panelas e fogão, até o cano de água e ar-condicionado. Fundamental para estruturas, equipamentos e fundações de edificações diversas. Os semicondutores, então… estes estão sendo alvos até da geopolítica, pois todo eletrônico necessita deles para funcionar. Multimídia de carros, GPS, e ocasionalmente, mísseis balísticos intercontinentais. Só isso!

New Cool Japan Strategy outline (2024)
©New Cool Japan Strategy outline (2024)

Para se ter uma noção, a mera exportação brasileira de petróleo gira em torno de US$ 40 bilhões, enquanto que a exportação de soja gira em torno de US$ 46 bilhões. Logo, o entretenimento japonês sozinho tem feito tanto quanto a ramos fundamentais para a economia global; energia, alimentação e eletrônica. Eu não fiz uma série sobre a guerra cultural aqui à toa, muito menos, ter escrito um livro inteiro sobre o assunto por conta de alucinógenos ou entorpecentes.

O assunto é sério, e grandes nomes do entretenimento japonês (e contemporâneos), extremamente respeitados na indústria há décadas, estão vindo à tona e mostrando mais deste ecossistema, que está cada vez mais relevante no dia a dia de bilhões, mundo afora.

Mantendo na mesma Sony, quando ela lança o PS2 em 2000 no Japão, os consoles entraram no radar até mesmo de entidades não muito bem quistas. O console foi lançado com o Emotion Engine — um chipset poderosíssimo produzido entre a Sony e a Semp Toshiba, que multiplicou o poder de processamento gráfico do console de forma sem precedentes.”

“Não só rendeu um salto gráfico nos jogos, mas entrou no imaginário do TI com um poder eletrônico ímpar. De tal forma que foi decretado pelo governo japonês como ‘tecnologia sensível’, temendo que tal eletrônica fosse parar na mão de “pessoas não bem quistas”, para falar o mínimo — Irã e Iraque. Sendo proibida sua exportação para estes países, temendo o desenvolvimento de aparato bélico baseado nessa eletrônica tão fora da curva.”

PS2
©PS2

Imagine que seu produto, por tamanha qualificação e destaque, venha a ser considerado sensível a ponto de se tornar perigoso em mãos erradas, e por conta disto, o governo federal venha impor restrições ao comércio deste produto. Loucura, não? Além disto, pense em como uma manufatura ocorre. Uma coisa seria se eu (se possuísse conhecimento sobre carpintaria e marcenaria) fizesse uma bateria por conta própria.”

“Eu compro a madeira localmente, a corto nos moldes que eu mesmo desenhei — faço todo o refino do material, polimento, envernização, pintura, e pronto! Mas não é a mesma coisa quando uma fabricante de instrumentos, que utiliza uma penca de ligações² logísticas em vários países distintos, e utiliza materiais de várias localidades, precisa fazer a mesma coisa.²O Oculto Vindo à Luz – Capítulo 6 – O Oculto Vindo à Luz/O Preço da Padronização

Os animes agora se tornaram commodities no mundo, e principalmente, em algo que já elenquei aqui por vezes como a ‘luz de canto do olho’, que está incomodando os grandes nomes do entretenimento. Quando você vê “críticas” descabidas sobre os frutos japoneses, como o que ocorreu recentemente com Yusuke Murata, ilustrador de One Punch Man, na divulgação do 34º volume da obra³. Novamente, o Ocidente forçando as barras, alegando que um design envolvendo a Tornado, seria sexualização infantil — isso de uma personagem adulta, só por ter uma baixa estatura (porque mulheres baixinhas não existem para estes malucos). ³One Punch Man – Vol.34

As diretrizes reveladoras

One Punch Man
©One Punch Man

A intenção é clara: destruir a todo custo a um gigante mundial, que está dominando o quintal cultural ocidental — nem que para isso, sejam taxados como filhos de satã! Os streamings estão sendo abarrotados de doramas e animes, pois suas contrapartes deste canto do mundo estão numa situação patética. Pois estão levando estúdios e divisões de produtoras à bancarrota, por não conseguirem audiência para suas obras fracassadas. Ou mesmo, simplesmente não existem mais — vide a Cartoon Network!

O governo japonês, ciente desta enorme capacidade, quer internacionalizar os animes, assim como a Coreia do Sul fez com os doramas e k-pop. Pelo Meti⁴ (Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão), foi estabelecida a meta de expandir o mercado internacional para US$ 129 bilhões até 2033. Para isso, estabeleceram as seguintes diretrizes:

  1. Apoio estratégico em grande escala e a longo prazo;
  2. Apoiar esforços para espalhar conteúdo japonês pelo mundo;
  3. Não interferir em produções criativas;
  4. Fornecer apoio direto;
  5. Priorizar aqueles dispostos a tomar riscos.

⁴METI (Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão) – Strategic Survey Report on Content Industry Overseas Expansion Promotion.

Meti Japan
©Meti Japan

Por conta de ataques de canalhas e salafrários da carcomida mídia ocidental, como o que trouxe no primeiro texto da série, lá em 2023, nomes deste setor, como Hideaki e Takashi, estão acompanhando a situação dos animes e seus efeitos colaterais.

A Keidanren⁵ (Federação Empresarial do Japão), em outubro de 2025, emitiu um alerta ao governo japonês para se atualizarem em relação a este crescimento, que posiciona os animes e mangás como “indústrias centrais” no país asiático. Então, as cinco diretrizes acima citadas, nascem para que não somente ações de marketing não se percam, bem como as PI (propriedades intelectuais) tenham o devido suporte. Keidanren

A terceira diretriz, “Não interferir em produções criativas”, de certo, nasce em reação aos ataques travestidos de críticas, que estão na realidade sendo usadas como armas nesta guerra de quinta geração, para que tenham a devida ação — além, é claro, do que o envolvimento do DEI gerou na cultura ocidental, com fracassos retumbantes, que por sua vez, deram chance aos japoneses de possuírem ainda mais espaço no mercado.

Nisto, Hideaki e Takashi já comentam de cara a esta pergunta: “Além disso, que tipo de mudanças você sente na forma como o conteúdo é entregue e criado devido à disseminação da Netflix e de outros negócios de distribuição?

Meti Japan
©Meti Japan

Hideaki Anno começa respondendo: “Primeiro de tudo, basicamente começo e termino com o que recebo no Japão, e ficaria grato se tivesse a sorte de achar interessante no exterior. Em “Shin Evangelion Theatrical Version” (lançado em 21), fiz o trabalho original, incluindo produção, distribuição e divulgação internamente, mas ao torná-lo praticamente autoproduzido, pude assumir a responsabilidade por mim mesmo, tivesse lucro ou não.
Takashi Yamazaki responde à entrevistadora: “Quando eu estava fazendo “Godzilla-1.0” (lançado em 23), eu nem conhecia o mundo exterior. Quando estava prestes a ser concluído, a Toho disse: “Vamos expandir para o exterior. Acho que a maior arma de trabalho para pessoas no exterior é buscar o país doméstico sem pensar em países estrangeiros. Assim, a obra tem mais força.

E ambos complementam sobre o âmago da matéria:

Hideaki: “As reclamações do espectador não retornam ao criador. Não tem jeito. Por isso, você não tem escolha a não ser confiar no criador que “isso é interessante.” Então acho que tudo bem ser doméstico. O Ghibli também é feito com o material doméstico de Miyazaki, e acho que não tenho nem um milímetro de casos internacionais.
Takashi: “Procuro criar obras que as pessoas possam apreciar 100% quando vêm ao cinema. É simplesmente mais divertido assim, mas se não criarmos uma obra que possa ser uma “experiência” para ver na tela grande, acho que o público não vai mais se dar ao trabalho de ir ao cinema. Acho que precisamos fazer esse tipo de trabalho.

O ponderável escancarado

On Your Mark
©On Your Mark

Nesta primeira leva, entre os blocos 1 e 2 da entrevista, há algo que precisamos compreender sobre como as obras japonesas são feitas. É possível que você possa ter uma leitura similar a minha, que no caso, é ver que nós consumimos as obras deles de forma enxerida, e explico o motivo. Quando, por vezes, eu disse que tínhamos os animes como ‘sobras na programação’, não era forma de falar.

Nós assistíamos os clássicos Merrie Melodies e os lunáticos Looney Tunes, e também, aos cartoons mais recentes, como KND: A Turma do Bairro, pela CN. A Nickelodeon oferecia Catdog, Os Castores Pirados, e outros tantos. Além dos cartoons da Disney, e outras produções diversas do Canadá e Europa, como Três Espiãs Demais!

Veja, porém, como funcionavam os animes por aqui. A CN tinha a Toonami, onde trouxeram Naruto e outros, enquanto a Disney distribuía os clássicos da Ghibli. Só que aos tantos, sempre sofriam de censuras diversas em falas, cenas com alguma “violência” e ecchi eram cortadas, e por aí vai. Então, aos poucos, começaram a ter uma outra abordagem, como o que ocorreu no Brasil nos anos 80.

Na extinta Rede Manchete, Cavaleiros do Zodíaco estreou da seguinte forma: o espaço para a animação na grade de programação foi cedido gratuitamente, em troca de merchã livre da empresa Samtoy (subsidiária da Bandai Namco no Brasil) no canal aberto — o que bate diretamente nas diretrizes apresentadas anteriormente de “Apoio estratégico em grande escala e a longo prazo” e “Apoiar esforços para espalhar conteúdo japonês pelo mundo”. New Cool Japan Strategy outline (2024)

Toonami
©Toonami

Hideaki e Takashi são uma parte numa indústria que se preocupa em defender àquilo que lhe são de direito. E quando digo que estão acompanhando, não é forma de falar. Fumiko Iwatsubo pergunta então para ambos:

O governo japonês planeja apoiar a indústria de conteúdo originária do Japão com o objetivo de vendas internacionais de 20 trilhões de ienes até 2033. O Japão também é um dos raros países do mundo onde a participação em filmes domésticos ultrapassa a metade. O que você acha dos desafios da indústria e de como o governo deve apoiá-los?

Hideaki: “Acho que a primeira coisa que chama minha atenção é o dinheiro, como o fato de que o valor de exportação é maior que o do aço, mas acho bom focar em transmitir a cultura japonesa ao mundo a baixo custo em vez de dinheiro, e acho melhor para o país cuidar disso. Coreia e China também estão fazendo isso, e Hollywood originalmente fazia.
Takashi: “A razão pela qual a percepção americana sobre o povo japonês mudou tanto após a guerra foi, obviamente, graças aos dramas daquela época. Acho que o poder nacional da Coreia do Sul também aumentou muito graças ao seu conteúdo. Olhe para obras japonesas e faça com que os japoneses gostem delas, e que gostem igualmente dos produtos japoneses. Para fazer as pessoas gostarem do próprio país, ele pode ser uma arma poderosa, mesmo que exija menos investimento. O governo finalmente percebeu.

Uma visão fundamental

New Cool Japan Strategy outline (2024)
©New Cool Japan Strategy outline (2024)

Aqui, uma leitura bem mais apurada e real do que já possuíamos; uma indústria rica que transmitia sua cultura de forma pujante (Ocidente)! E quando Takashi fala sobre o poderio nacional sul coreano aumentou, não foi sobre a forma militar, mas sim, dividendos que acabaram por enriquecer a pequena nação asiática, e posteriormente, a ter relevância cultural.

E por meio disto, ter poder no mundo. Nestes quatro anos, os quais venho estudando mais afundo sobre algumas das dinâmicas do entretenimento, entre ter feito a cobertura de eventos da cultura japonesa, até escrever um livro sobre, algo ainda não estava fechando, até esta entrevista sair.

Eles, melhores do que um combinado de todos os conglomerados midiáticos ocidentais, compreendem das dinâmicas para o sucesso do entretenimento, e que é necessário uma valorização e proteção deste conteúdo. Eles sabem que a ideia de termos ainda mais acesso à cultura nipônica e seus meandros, por conta dos streamings (Netflix, Disney+), além do amplo mercado de jogos e o crescimento exponencial dos mangás, precisa ser melhor explorado, porém, mantendo todo o espectro cultural japonês intacto.

Meti Japan
©Meti Japan

O aumento do consumo cultural japonês contribuiu por estas bandas do planeta à solidificação no imaginário popular o ideário japonês, quebrou preconceitos e estereótipos, o que deu condições de alcançarem sucesso. Tudo isso, sem inserções políticas de qualquer natureza, lucros apenas como consequência e não por objetivo — visão artística a qual compartilho, e principalmente, com o que os consolidam no mercado mundial: serem quem são e assumirem os riscos.

Nisso, conseguem seu espaço sem algum tipo de insegurança. E, sabendo que o mercado ocidental está cada vez mais centrado neste conteúdo, não tardaram em agir para protegerem este poderio cultural que vem rendendo bilhões, e dores de cabeça para os figurões da cultura ocidental.

Eles sabem que não podem mais depender dos players convencionais, ou sofrerão outra leva de censura e tumulto que lhe ocorreram em suas obras no passado, portanto, estabelecer apoio estratégico em grande escala e a longo prazo, e priorizar aqueles dispostos a tomar riscos (pensando provavelmente nas represálias sobre ecchi, estética e afins), à entidades e grupos por aqui.

As conexões estabelecidas

Crunchyroll
©Crunchyroll

E aqui, faço uma conexão com um dos tópicos desta matéria da Forbes, pois tais entidades e grupos já existem em nosso meio, e há bastante tempo. Funimation, por exemplo, hoje absorvida à Crunchyroll, nasce pelas mãos de Gen Fukunaga. Pode não ser um nome que de cara lhe dê lembranças, mas ele é simplesmente a mente por trás da empresa de streamings, que entrou no radar da poderosa Sony.

Gen, criado em Indiana, cria a companhia para licenciar, dublar e distribuir as animações sem que sua essência fosse perdida pela censura tosca de empresas como a 4Kids. A empresa dele foi ousada logo de cara, ao desejar transmitir Dragon Ball Z, com uma recusa inicial da Toei na época.

Até que seu tio e produtor na mesma empresa, Nagafumi Hori, convenceu diretamente do Japão a ceder os direitos para a Funimation, e ali começou uma jornada de sucesso e valorização da cultura nipônica no Ocidente, se tornando um dos maiores nomes na distribuição e licenciamento de animes no mundo. Ele não foi o único, pois em 2006, Kun Gao, James Lin, Brandon Ooi e Vu Nguyen, fundaram na Universidade de Berkeley a Crunchyroll. Ah, conexões, e que conexões!

Comicon/Gen Fukunaga
©Comicon/Gen Fukunaga

Não somente elas, pois os exemplos são vastos e explanam muito do mercado cultural japonês, e suas precauções mais recentes. A Viz Media ficou conhecida por ser a maior distribuidora de mangás fora do Japão nos anos 80 e 90, a AnimeLab na Austrália e Nova Zelândia legendou animes para o inglês na Oceania, e a Anime Network com sua distribuição especializada em animes japoneses, foram empresas que nasceram em um nicho que cresceu rapidamente.

E não foram só os animes e mangás que ganharam espaço, a música japonesa foi no mesmo rumo, com empresas como a JPU Records (Reino Unido), Aniplex of America (subsidiária Sony dos EUA) — essa, em específico, trazia as trilhas sonoras dos animes ao conhecimento do grande público.

E para além de empresas, a influência e controle direto de decisões-chave, em minha visão, contribuíram para o sucesso da versão filmada de One Piece, já que Eiichiro Oda não deixou que sua obra sofresse do mal que a Netflix afligiu sobre Cowboy Bebop. Indicação de personagens, roteiro em cenas, tudo passou por suas mãos, e mesmo que sua palavra não tenha sido lei, certamente ignorá-lo se tornou inviável ante aos fãs assíduos da saga.

One Piece
©One Piece

Caso ainda não tenha sido suficiente, esta lista ainda conta com o nome que certamente movimentou a indústria dos games no Ocidente, Hideo Kojima. O diretor, também contemporâneo de Hideaki e Takashi, se destacou pela franquia de Metal Gear Solid, e que se fez ainda mais presente ao chocar o mercado com Death Stranding.

O que quero dizer com “eles estão acompanhando”? Aos tantos, e de maneira natural e orgânica, todas estas entidades foram nascendo com apoio e suporte diretos do Japão, e estabeleceram conexões fidedignas por aqui, como no caso da Samtoy e Manchete, que trouxe anteriormente.

De restos na programação cultural ocidental, foram ganhando espaço cativo no mercado, como os carros japoneses nos EUA, durante a era do mal-estar pós-crise de 1973. As demandas aumentaram, a oferta também, e logo, empresas como a Toyota se tornaram as mais rentáveis do mercado global, e semelhantemente, ocorreu com o conteúdo cultural japonês.

Sem sequer pensar nesta possibilidade, o Ocidente multiculturalista cometeu um erro consigo próprio em sua cultura, ao permitir o envolvimento de pautas sociais e grupos políticos, e nisto, cometendo outro erro logo após, ao ignorar a presença multifacetada de nomes da cultura japonesa, aqui estabelecidos. E diferente de nossa cultura autofágica, os japoneses no meio cultural (mesmo os que não se suportam), se comunicam muito mais do que você possa imaginar, com isso, estabelecendo uma rede de conexão direta e blindada dos problemas ocidentais.

A hierarquia e sua blindagem

Death Stranding
©Death Stranding

Estas diretrizes são a resposta certa para um problema que não aceitamos meramente abordar que exista, já que nossa cultura está igualmente perturbada — como sempre digo, cultura é um fruto resultante. Hideaki não é um mero autor, pois já dirigia animações antes mesmo de criar Neon Genesis Evangelion, a mesma coisa para Takashi, que já em 1994, dirigia seus primeiros episódios de animes, até conseguir trabalhos notórios em séries de televisão.

O que, de forma prática e aplicada, deveria ser motivo da atenção de muitos. No Japão, a verticalização das hierarquias é pouco conhecida, e portanto deveria ser melhor abordada. Enquanto que macacos velhos como ambos citados trabalham, seus kouhai (novatos), tendem a seguir de forma parecida às decisões de seus superiores, principalmente na mentalidade artística.

Estes dois tendo esta visão, a qual os animes são feitos para japoneses, e o resto que se adeque, mandam uma mensagem poderosa e clara àqueles que pensam em usar a cultura japonesa para seus próprios fins. Eles (japoneses) estão na direção, roteirização e consultas históricas — como no caso da adaptação em série de Xogum, pela Disney (o livro sendo de autoria canadense), e por conta da globalização, vários são os asiáticos dispostos a repetir os feitos dos criadores da Crunchyroll, além claro, de entusiastas destas bandas do mundo!

Neon Genesis Evangelion
@Neon Genesis Evangelion

Os eventos culturais, como o Bon Odori (que já se tornou atração anual na cidade de Goiânia), Anime Expo em Los Angeles e Japan Expo em Paris, estão se tornando hubs poderosos da cultura nipônica, e estão começando a ofuscar eventos tradicionais do Ocidente.

Então, não pensem que eles estão longe de nós, pois sua cultura está mais presente em nosso meio do que jamais esteve, logo, seus exponentes estão ganhando destaque e estabelecimento de forma local e descentralizada.

A decadência desanimadora

Já falei sobre o motivo do sucesso que O Incrível Circo Digital, Helluva Boss, Hazbin Hotel Lackadaisy tiveram logo de cara, ao saírem de nomes que um dia estiveram na indústria, e ao perceberem o buraco que estava ocorrendo no ecossistema cultural, partiram para a independência destes meios, e estão chamando a atenção das grandes empresas. Hazbin Hotel está na Amazon Prime Video, e O Incrível Circo Digital na Netflix, no caso de Hazbin, financiados diretamente pela empresa de Jeff Bezos.

O Incrível Circo Digital
© O Incrível Circo Digital

Estão com campanhas de arrecadação própria, venda de merchandising para financiamento das animações, e tudo isso pelo trabalho de muitas pessoas mundo afora. E como relatada na entrevista com Jacqueline Souza⁷ para nosso site, ao sequer perceber  durante a dublagem da animação que Hazbin se tratava de uma obra independente, pela tamanha qualidade oferecida. Obras estas que estão aos tantos fugindo de diretrizes como o DEI, e não entrando em colisão com a cultura japonesa (O Incrível Circo Digital tem até um episódio onde parte dele é referente ao estilo de animação japonesa, em 2D). Entrevista com Jacqueline Souza

Os japoneses estão atentos no que vem ocorrendo em nossa cultura, e já estão se blindando de tudo o que a levou  ao ralo. Se não tivermos a hombridade de admitir que estamos num rumo ao abismo sem volta, não adiantará reclamar de frivolidades como ecchi — eles se estabelecerão com raízes profundas e resistentes.

Porém, ao perceber que a venda da Warner para a Paramount, que envolveu-se numa polêmica com a Netflix pela compra de um dos grupos midiáticos mais velhos e consolidados do mundo, e que se arrasta entre 2025 e 2026, percebo rachaduras neste solo outrora fértil, que tende confirmar a péssima situação do nosso entretenimento, e principalmente, dos fundamentos de nossa cultura.

Enquanto que do outro lado do pacífico, eles estão se preparando para avançar em nosso mercado, de forma natural e orgânica, sem interferências no processo criativo, e dispostos a defender àqueles que não se importarem com os riscos desta decisão, que certamente, trará retaliações (que se intensificarão) conhecidas.

O que foi perdido na cultura

Hazbin Hotel
©Hazbin Hotel

Enquanto fazia esta matéria, estava jogando Left 4 Dead 2, e pasmem, um jogo de 17 anos atrás, 2009. O jogo foi absurdamente bem recebido, bem composto e executado — feito por pessoas como eu e você, amantes dos jogos.  Uma das sessões do jogo exibe uma parte jogável em um dos mapas, com vários pontos de comentários dos desenvolvedores da franquia; modeladores, programadores, game design, dentre outros.

Mostrando detalhes das modelagens dos zumbis; quando utilizaram texturas de batatas e forramento diverso, até mesmo, detalhes dos testes feitos com pessoas diversas, das mais diferentes etapas e preparações do jogo. 2009 até parece que foi a pouco, mas já se encaminha para duas décadas, e mostra de forma empírica a decadência dos processos artísticos de entidades culturais. O que se vê hoje em produções semelhantes é o extremo oposto do que a franquia de ‘survival’ exibe.

Não temos mais contato tão direto entre o público e cabeças da produção, uma verdadeira fratura exposta na relação entre empresa e consumidor final. Não há mais um feedback que destrave soluções inovadoras, escolhas ousadas. Tudo ficou muito plano e pouco tátil, o que tirou a sensação de realidade de nossas mãos — porém, das mãos deles também.

Left 4 Dead 2
©Left 4 Dead 2

Estive em uma livraria no famoso Goiânia Shopping, no Setor Bueno (bairro nobre da cidade), para apresentar a ideia do livro. Para minha infeliz e já esperada “surpresa”, vi de perto esta fratura ao olhar fino, ao que uma das responsáveis acreditava meramente na questão da oferta-demanda, no caso do sucesso cultural japonês por aqui.

Mangás sendo bem vendidos, junto de produtos adjuntos (como as action figure desses mesmos mangás), e tudo o que nos compõe e representa, simplesmente ignorado nas prateleiras — verdadeiramente depressivo de se acompanhar! Se os frutos da cultura japonesa alcançarem o patamar de dominação absoluta, não acharei de mau algum! Será por mérito, organicidade e ponderação, as quais vimos no começo desta matéria.

Eles estão vendo bem o que não está funcionando para si, mas, principalmente para o Ocidente. Se tais ações se concretizarem, se preparem, pois o outro lado estará pronto para defender àquele que aceitar o risco de ser emissário de sua cultura; com financiamento, apoio logístico, suporte técnico, marketing e mídia. E o principal, sem interferências ilegítimas nas obras.

Mangás
©Prime Cursos

Esta é a hora perfeita para se compreender mais da cultura nipônica, mas principalmente, testemunhar a guerra em seu auge, e perceber a cultura no âmago do que é — valores irrevogáveis. Se preparem para serem taxados de tudo quanto é rótulo negativo, nem que para isso, eles destrocem sua legitimidade por ataques diversos, pelo que ainda resta da mídia.

Também se preparem para atuar na cultura em toda sua plenitude, desde a cobertura e estudos (como eu faço), até compreender que a cultura não é mero detalhe financeiro, é uma commodity poderosa — e tal qual uma, fundamental para a subsistência humana!

Um novo domínio cultural à vista

Forbes Japan - Hideaki Anno/Takashi Yamazaki
©Forbes Japan

O avanço da cultura japonesa, e posteriormente da asiática, não é mera questão financeira do capital, é a prova cabal da falência de nosso ecossistema cultural que destruiu nossa identidade, e alertou com isso aos grandes nomes da cultura nipônica. Se aos tantos estamos vendo escolas de mangakás como a Me2ArtStudio de Maurício Ossamu, que entrevistamos em 2024 pela Shonen West⁸, na mesma velocidade, estamos perdendo o poder cultural e relevância — para a arte, pior do que a morte. ⁸Entrevista – Shonen West – Parte 2

O tempo está acabando, e atacar os frutos desta árvore frutífera não contribuirá em nada, senão, acelerará o processo de uma cultura tão rica por estas bandas. Não é receio da cultura oriental, pois ela é o motivo de existirmos aqui, assim como os colegas da Otaku PT e Você Sabia Anime. É, porém, uma preocupação com uma cultura que me moldou logo no começo de minha vida há mais de 20 anos, a qual, por vezes, andou lado a lado com a cultura asiática, criando obras incríveis como Jovens Titãs; onde Amy & Yumi (as puffys) fizeram a abertura em japonês e inglês, com estética de anime.

Me sinto traído, e não pelos japoneses, mas por nós mesmos! Não cobramos como os fãs japoneses, pelo contrário, reclamamos de barriga cheia — e constantemente polemizando em coisas vazias. Qualquer coisa nos desmotiva, não sendo possível ter continuidade em algo. Nos faltam doses cavalares de realidade, a qual, Hideaki e Takashi elucidaram sem maiores problemas!


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