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Artigo

A “Evidências” do Japão: O Hino Desconhecido que Conquistou o Mundo

Ana
©Kyu Sakamoto / Chitãozinho & Xororó

Todo brasileiro tem um hino oficial não-oficial para momentos de fossa, karaokê e cantoria generalizada: “Evidências“, de Chitãozinho & Xororó. É aquela música que até quem finge que não gosta sabe cantar a musica inteira. Pois bem, o Japão também tem exatamente esse fenômeno cultural: Uma música que transcendeu gerações, virou patrimônio afetivo do país e grudou na mente de todo mundo. Só que, por lá, o nome dela é “Ue o Muite Arukō”, mundialmente conhecida pelo apelido um tanto quanto gastronômico de “Sukiyaki”. Se você acha que música japonesa se resume a abertura de anime, prepare-se para conhecer a história por trás do verdadeiro “Evidências” oriental.

O Trio 689: A Fábrica de Hits do Pós-Guerra

©Kyu Sakamoto

Antes de criarem esse megassucesso, os bastidores da cultura pop japonesa nos anos 1960 giravam em torno de uma verdadeira força-tarefa criativa chamada Trio 689. Eles trabalhavam juntos na televisão e no rádio da época, especialmente no icônico programa de auditório Yume de Aimashō.

Mas de onde veio o nome do trio? A alcunha era uma mistura dos nomes do trio e dos números que eles representavam:

  • Rokusuke Ei (o letrista), cuja inicial do nome remetia ao número 6 (roku).
  • Hachidai Nakamura (o compositor), com o “Hachi” representando o número 8 (hachi).
  • Kyu Sakamoto (o jovem e carismático cantor), associado ao número 9 (kyu).

Eles já funcionavam como uma máquina de fazer sucessos antes do estouro mundial, mas o ápice da genialidade deles nasceria de um momento de pura frustração política.

A Noite Solitária após uma derrota

©Kyu Sakamoto

Muita gente hoje em dia assume erroneamente que a letra de Sukiyaki foi escrita como um reflexo direto das tragédias da Segunda Guerra Mundial. Mas isso não é verdade.

A música nasceu em 1960, em uma noite de profunda desolação para o letrista Rokusuke Ei. Ele voltava para casa a pé após participar e acompanhar as gigantescas manifestações populares do Anpo — o Tratado de Cooperação e Segurança Mútua entre o Japão e os Estados Unidos. O acordo permitia a presença militar americana em solo japonês e gerou revolta nacional por medo de o país ser arrastado para novos conflitos. Quando o tratado foi aprovado à força no parlamento, o movimento popular sofreu uma derrota esmagadora.

Sozinho, exausto e sentindo-se impotente com o rumo político do país, Ei lembrou-se de um velho conselho: andar com a cabeça erguida para que as lágrimas não caíssem. Era esse exatamente o sentimento gravado nos versos: a dor de uma derrota política e a necessidade de seguir em frente em meio à solidão.

Do Êxito Local ao Ironico Sucesso nas Terras do Tio Sam

No Japão, interpretada pela voz leve de Kyu Sakamoto, a música virou um sucesso estrondoso e imediato, tocando o coração de uma nação que tentava se reerguer. Mas o destino reservava uma das maiores ironias da história da música.

Graças a um diplomata britânico que ouviu a faixa no Japão, levou o disco na mala para Londres e a apresentou a um DJ da BBC. A música virou febre na rádio britânica. E para facilitar a pronúncia dos locutores ocidentais, a gravadora decidiu rebatizar a faixa de “Sukiyaki”, o nome de um prato típico japonês, simplesmente porque soava “exótico” e fácil de falar, embora não tivesse relação alguma com a letra melancólica. E com o sucesso por lá, a gravadora americana Capitol Records percebeu o potencial e lançou a música nos Estados Unidos em março de 1963. Irônico não é?

E o ápice da ironia aconteceu em junho de 1963: a música chegou ao 1º lugar na parada Billboard Hot 100 nos Estados Unidos. Pense nisso: um letrista japonês escreve um desabafo doloroso contra a influência americana, a música ganha nome de comida para agradar o ocidente, e os próprios americanos a elegem como a canção número 1 do país, sem saber que consumiam, sem querer, um hino de resistência disfarçado.

Porque a Letra Toca os Corações dos Japoneses?

©Kyu Sakamoto

Mais do que um hit chiclete, Sukiyaki é um retrato universal da resiliência humana. A letra evoca aquela sensação agridoce de tentar manter a dignidade quando tudo parece desabar, contando as estrelas borradas pelas lágrimas em uma noite fria, mas lembrando que a esperança (e a felicidade) teima em existir acima das nuvens. É uma canção que acolhe a tristeza e empurra a pessoa para a frente.

Do Japão para o resto do mundo

Ao longo das décadas, “Ue o Muite Arukō” rompeu barreiras culturais e ganhou o mundo através de regravações marcantes, como a versão R&B da banda americana A Taste of Honey em 1981 e a releitura em espanhol gravada por Selena nos anos 90, provando que sua melodia agridoce tinha um apelo verdadeiramente universal. Mas o seu legado mais vivo permanece em sua terra natal: até os dias de hoje, a canção continua a ecoar com força em especiais e festivais musicais de fim de ano da televisão japonesa, como o tradicional Kohaku Uta Gassen, onde é entoada por novas gerações de artistas para lembrar o público de que, mesmo nos momentos mais difíceis, é preciso continuar caminhando com a cabeça erguida.

Para fechar, eis a tradução dos versos que conquistaram o mundo:

Vou andando com a cabeça erguida

Para que as lágrimas não caiam

Lembro-me do dia de primavera

Em uma noite solitária

Vou andando com a cabeça erguida

Contando as estrelas borradas

Lembro-me do dia de verão

Em uma noite solitária

A felicidade está acima das nuvens

A felicidade está acima do céu

Vou andando com a cabeça erguida

Para que as lágrimas não caiam

Andando enquanto choro

Em uma noite solitária

Vou andando de mãos dadas

Mesmo aqueles que não têm caminho de volta

Lembro-me do dia de outono

Em uma noite solitária

A tristeza está à sombra das estrelas

A tristeza está à sombra da lua

Vou andando com a cabeça erguida

Para que as lágrimas não caiam

Andando enquanto choro

Em uma noite solitária