Glitch Productions — alguns anos, várias lições!

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O Incrível Circo Digital chegou à sua conclusão após três anos longos e turbulentos, especialmente nos momentos que antecederam o final — marcados pelos vazamentos das exibições nos cinemas. Gameoverso estreou bem, estabilizando-se na casa das 20 milhões de visualizações, e demonstra um potencial consistente de enredos, personagens e animação 2D.
Guerreiros de Guinevere, Lackadaisy e O Distrito dos Lampejos se tornam os novos chamarizes da produtora australiana. Porém, após estes anos de transformação — quando passaram a produzir conteúdo original e agregaram nomes do cenário autoral, até conhecidos da grande mídia como Dana Terrace (A Casa da Coruja) — algumas coisas ainda precisam de ajustes pontuais e, principalmente, de atenção redobrada.
Agora, vistos pelo mundo e tendo catalisado bons nomes no ramo da animação, ilustração, redação e produção em geral, além de mostrarem ao público que ainda há um processo criativo vigoroso por estas bandas do planeta, não tenho dúvidas quanto ao despertar de novas obras e conteúdos de boa qualidade num futuro próximo. Seja por bem, ao perceberem que é possível reunir uma turma em torno de um propósito, ou por mal, querendo provar que podem ser melhores.
A força de agregar talentos

O começo da Glitch é baseado em animações de SMG4 — memes de Super Mário de forma satírica, que ainda geraria duas obras baseadas: Meta Runner em 2019, e Sunset Paradise em 2021. Então veio Murder Drones, dezenas de milhões de visualizações em média, e as outras animações que vocês já conhecem!
Gameoverso tem algo mais interessante em sua criação, já que a obra de Ross O’Donovan e Arin Hanson sofreu várias rejeições de estúdios de Hollywood. Por ser um conceito 2D, e o mercado americano focado nos 3D, nada ficou de pé até 2026, quando encontrou seu lugar ao sol e superou a audiência dos dois pilotos anteriores.
Tendo nascido na Newgrounds (plataforma de conteúdo independente) em 2009, não seria muito difícil encontrar outros autores por aí com potencial criativo similar. E, com o advento da Internet, literalmente de qualquer lugar do mundo! Não somente autores, mas todo o pessoal da arte e animação necessários para a criação de qualquer conteúdo audiovisual.

Não somente as bibliotecas estão lotadas de conteúdo inexplorado, como também há desenhistas, cartunistas e outros no ramo que estão cheios de talento e poucas oportunidades. E quando surge O Incrível Circo Digital, obra comissionada diretamente pela Glitch, um novo modal há de ser considerado para criar equipes plenas para o futuro próximo.
O começo da divisão de animações da Warner, pelas mãos do lendário Leon Schlesinger, se deu ao fazer exatamente a captação de talentos quando a animação ainda era um mercado totalmente novo e relativamente desconhecido em estrutura de mercado. Nomes da animação como Fred “Tex” Avery, Friz Freleng, Chuck Jones, e Mel Blanc — o homem das mil vozes, surgiram e tornaram-se lendas!
A rival histórica, Disney, era basicamente tocada por Roy na produção, e seu irmão, Walt, na criação do material. Ao longo dos anos 1930 e 1940, não ficaram sozinhos; foram atrás de material humano competente para ampliar seu mercado de produções. E, não sendo (ainda) de uma corporação ou conglomerado, a Glitch tem de pensar em se sustentar com mais obras — e com material humano novo, talentoso, e confiante no mercado!
Conexões multilaterais — a base do sucesso

Uma coisa que me surpreendeu em especial foram as dublagens oficiais e disponíveis no YouTube desde o início. Murder Drones foi o primeiro, e depois, todas as obras passaram a possuir o recurso. E não tenho dúvidas que isso impulsionou o sucesso de suas obras mundo à fora! Quando entrevistei a dubladora da Frieren, Jacque Sousa, que também dublou outra obra independente, algo bom se revelou.
A obra tem chegado às casas de dublagem como mais um trabalho normal — que vale a pena investigar mais a fundo. Com isso, quero chegar no seguinte ponto: se conseguiram alcançar cerca de vinte países diferentes — o que em termos de produção deve ter sido um desafio por si só, aí está a chance de ouro; procurar novos talentos e incorporar um mercado de seus produtos.
Veja que em Fortnite, com a febre de O Incrível Circo Digital, ganhou dois personagens centrais da obra em skins oficiais. O que, por si só, fará com que uma nova gama de fãs seja alcançada, e dividendos sejam revertidos por outras fontes.

Uma representação oficial ou assessoria direta permitiria disponibilizar mais facilmente seus produtos com maior fidelidade e qualidade — basta ver que animações japonesas já vêm diretamente do Japão e sem intermediários. E como já possuem merchandising próprio, vendê-los diretamente e ter a opção de conquistar novas formas de renda, seria o ideal para financiar obras futuras e novos projetos.
Além disso, conquistar algo específico que gigantes do mercado ocidental perderam: ocupar o imaginário do público. Imagine licenciar oficialmente sua imagem para a indústria de brinquedos, festas temáticas, e outras formas de uso da imagem e em vários mercados e de forma simultânea?
É um poder midiático que transformou o mercado japonês do entretenimento numa superpotência da área, onde rendem mais na exportação de animes, mangás e jogos do que aço e semicondutores — uma verdadeira commodity no mercado. Com a internet possuindo mais recursos publicitários do que a televisão, este seria o caminho mais fácil para alcançar mercados, sem que necessariamente precisem assumir riscos maiores.
Serialização e transformação de mercado

A produtora tem seguido o modelo de ROI (retorno sobre investimento) antecipado, onde a venda dos produtos e financiamento às produções antecede a produção. É perceptível que isto tem, ao menos, lançado episódios com uma boa qualidade de execução, até mesmo uma evolução de qualidade, sem irresponsabilidades financeiras. Porém, se desejam ter um sucesso de fato e não meramente pontual, precisam se atentar para algo: mercado!
Lançar cerca de seis episódios por ano é um ritmo que pode parecer confortável — quando você percebe que estão com núcleos variados: O Incrível Circo Digital (finalizado), O Distrito dos Lampejos (3D), Guerreiros de Guinevere, Gameoverso e Lackadaisy (2D). Isso é um problema a ser abordado, pois sem foco não há como manter um bom ritmo de produção.
Se eu tivesse que adivinhar, pode ser que tenham lançado episódios-piloto para construir momento e interesse, justificando seu investimento posterior. Ou, se for o caso, até desejam serializar, porém, com tantas frentes de trabalho e utilizando do mesmo pessoal simultaneamente em vários núcleos, tornam isso inviável!

Para situar a questão, olhemos para o que está dando certo no mundo: o Japão. A Terra do Sol Nascente está repleta de estúdios independentes, tais como: Kyoto Animation (Lucky Star, City The Animation); Trigger (Dungeon Meshi, Little Witch Academia), e tantos outros. A Kyoto se solidificou no ramo de slice of life, e consegue trabalhar anualmente com uma ou duas animações — ou uma animação com 24 episódios em dois cours (temporadas); e normalmente, um filme para os cinemas.
A Trigger, porém, tem algo mais parecido com a operação da Glitch. A Trigger tem grandes direcionamentos ao mercado ocidental: Cyberpunk: Edgerunners, Dungeon Meshi (coincidentemente, Netflix, que também distribuiu O Incrível Circo Digital); e entrega mais conteúdo com uma quantidade similar de funcionários fixos, até obras em bloco (completo).
Não somente isso, suas obras mais recentes alcançaram grandes públicos, sempre estão localizadas em vários mercados, com alta qualidade de execução e aclamadas pela audiência. SE, contratar mais pessoal possa não ser viável, então, o foco precisa estar melhor direcionado. Aqui temos algo interessante a denotar: há mercado, há público! Ainda mais vindo de pessoal independente e sem um passado conhecido, não é necessária uma precaução pela recepção — é novo, as pessoas vão atrás!

Venho pregando como um lobo solitário quanto ao mercado ocidental e sua pobreza de títulos. Não posso ser leviano e crer que tudo será uma maravilha; há espaço para muito conteúdo ser apresentado ao público. Gostei da proposta de todos os títulos da produtora australiana — a maior parte do público segue da mesma forma.
Quero crer que os muitos títulos propostos são uma forma de vitrine; se for para meramente demonstrar trabalho, estão perdendo a chance de engatar um ritmo mais consistente. Se for para tentar agradar a todo mundo, se colocarão num território perigoso e suscetível às péssimas dinâmicas dos ‘fandoms’.
Precisam se atentar em não perder momento, pois os animes japoneses estão chegando a trinta títulos por temporada, e alguns já disponíveis no YouTube, como Akane-Banashi. Lackadaisy, que agora está associado com a Glitch, caiu no limbo e perdeu o momento entre a audiência. Se quiserem alcançar relevância e presença no mercado, terão de tratar suas produções como mercadorias valiosas, e se posicionar como uma produtora respeitável.
Proteção criativa

Vazamentos de dados, autora em crise e chegando a desejar o fim da obra por causa de fãs aloprados e perturbando a produção. Eu sei, a Glitch é pequena, sem uma empresa-mãe ou figurões de apoio do mercado. Porém, quando uma única obra alcança centenas de milhões de espectadores, ficou visível que certos passos são necessários se desejam permanecer por conta própria e resistir a certos baques no ramo.
E aqui, uma coisa realmente perigosa ocorreu: se um autor é desestabilizado e responsabilizado por problemas externos, algo está errado — ou melhor, a ausência de algo é o problema. Os vazamentos do episódio final de O Incrível Circo Digital foram diretamente aos ouvidos de Gooseworx, que sendo apenas autora, não tinha qualquer participação neste processo de distribuição.
Sem produtores especializados no ramo, vazamentos de dados fundamentais e outros deslizes tornam-se mais prováveis e podem levar tudo abaixo. Não somente isso, é notório para quem é da área, como eu, que a falta de assessoria especializada atrapalhou bastante, quando a própria Gooseworx resolveu responder e se posicionar — o resultado foi desastroso, e por sorte, não prejudicou o todo.

As fraquezas expostas trouxeram polêmicas que podem atrapalhar futuros sucessos da produtora. Condições de trabalho expostas por ex-funcionários pelo site Glassdoor (plataforma de emprego), a demissão abrupta da dubladora Celeste Notley-Smith, voz original da personagem Tari (de Meta Runner e SMG4) sem aviso prévio.
Não se trata de negar fatos; porém, o potencial destrutivo aqui é enorme. Poderiam facilmente ter uma atenuação por meio de uma produção mais preparada. Além da solução posterior de qualquer altercação que possa ocorrer. Se até políticos, desportistas, pessoas de amplo reconhecimento popular possuem assessores para comunicações, a Glitch precisa se atentar para isso o quanto antes!
Tendo feito conexões com diversos autores que estão com projetos prontos para o mercado, blindá-los de ataques descomunais e vexatórios se torna obrigação. Principalmente, quanto ao passado de cada um, conteúdo da obra e outras dinâmicas. Foram interessantes ao lidar com o R34 que fizeram de seus personagens, no vídeo publicado após o piloto de O Incrível Circo Digital — mostrou resiliência e uma nova forma de abordar problemas, mas precisam ter um escudo completo se desejam sucessos futuros.
A transformação de um conceito

O que começou com animações de nicho, se transformou num símbolo de mercado. Perfeito? Claro que não! Porém, tornaram-se gigantes em mídia e precisam de adequações visando a sustentabilidade plena da operação. Vendem produtos derivados das obras para financiamento de outras obras — o que já é pensar à frente em termos de ampliar o mercado. Mas precisam de ações mais incisivas neste mercado!
Deu para perceber que a qualidade das produções evoluiu — perceptível em Murder Drones e O Incrível Circo Digital, que permaneceram em produção e exibição por anos. Porém, nove episódios em três anos é um espaço tremendo e cheio de complicações. A atenção dos animes se deve, em parte, por conta do volume de produção que estúdios no Japão possuem — inclusive, os pequenos.
Consistência de qualidade é fundamental, mas sem o acompanhamento de constância, outras obras podem tomar a atenção do público. Basta ver o exemplo da transmissão de energia: quanto maior a distância, maior a força necessária para não perder potência! Soltar pilotos é bom, no entanto, um enorme espaçamento pode interferir negativamente quanto à audiência.

Este espaçamento pode prejudicar a criação e desenvolvimento de enredo — ele dá tempo para que o público pense em demasia e crie conjunturas diversas, que em alguns casos ficam muito vocalizadas e inflamadas entre os fãs — daí nascem os ships e teorias absurdas entre personagens — e, quando uma dessas teorias escapa e alcança os criadores, o resultado não é saudável.
Também dá tempo para que o autor pense em demasia e acabe criando muitas propostas, perdendo a noção. Uma sequência bem feita prende o espectador fiel e concretiza uma proposta mais robusta — já que não estamos falando de um filme pleno como os do Studio Ghibli, mas de séries.
Basta ver que o projeto de adaptação em animação da Paramount, Among Us, lançado em 2024, perdeu força na mídia. Já que o lançamento foi ocorrer somente em 2026 no YouTube da gigante do cinema americano. Guerreiros de Guinevere e O Distrito dos Lampejos foram lançados em 2025, e não tiveram novos detalhes revelados sobre as obras.

Falta mais conteúdo sobre as obras: bastidores de produção, institucionais sobre a empresa e suas produções, conteúdos expandidos sobre eles — para além de chamadas de merchandising. Há making-of de animadores que trabalharam em séries da Glitch, mas nenhum deles no canal oficial da produtora. Coisas que aproximem o público de si, e gastando bem menos tempo e recursos do que um marketing composto.
Ser independente no cenário do entretenimento é: não ser de uma corporação de grandes proporções; não ser pautado por grupos, nem ser filhinho de papai rico (estou falando de você, Mix Tape). A Glitch, porém, precisa evoluir conceitos para não ser engolida pela inanição que costuma sufocar pequenas empresas. Obras grandes não se fazem por grande público, são feitas nas mãos de quem atuam grandiosamente!