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Artigo

O legado de Takarajima — a música que mudou as escolas do Japão!

Josué Fraga Costa
©Anime United

Os animes e jogos japoneses são responsáveis por um trabalho vital na disseminação da cultura japonesa, que poucos na mídia realmente têm a compreensão do que seja e como se formou: ser vetor de propagação de seu portfólio cultural. Artes gráficas, narrativa, enredo e música. Sim, aquele amontoado de sons que, juntos, criam a imagem perfeita de algo abstrato.

Porém, mesmo dentre os que já são fãs mais assíduos da música japonesa, principalmente as mais novas como LiSa ou Aimer, falham em um ponto. Há um equívoco em se limitar ao que é recente e famoso —, famoso apenas para quem não mergulhou mais fundo na cultura japonesa. Digo, a música que o japonês realmente vive!

Hoje começa uma nova série de matérias sobre aquilo que mais domino: a música — mais até do que as matérias que faço aqui há mais de quatro anos! Não abordarei meramente gostos pessoais ou modinhas de momento. Aqui, mostrarei um mundo que parece ser totalmente novo, porém, que é mais próximo de nós do que realmente parece. E para abrir essa jornada, apresento a você 宝島 (Takarajima), um clássico que revela como a música japonesa vai muito além do J-Pop e dos Idols.

O nascimento de um clássico

©The Square/S.P.O.R.T.S

O ano era 1986 — o Japão vivia um momento de plenitude cultural, social e econômica. Coincidentemente, na música, o Jazz acompanhava este momento de bonança, tal qual ocorreu nos EUA durante os anos 40 e 50. Aqui, na sua vertente Fusion Jazz, em alta pelo mundo com nomes famosos, como: David Axelrod, Grover Washington Jr e a Mahavishnu Orchestra.

No Japão, uma banda seria reconhecida, teria grande apreço e importância no cenário musical japonês, The Square — o grupo então lança o álbum S.P.O.R.T.S.! Nomes como Masahiro Andoh (considerado um dos, se não o maior, guitarrista de todos os tempos no Japão), compositor de vários hits de sucesso — um deles, que abordarei mais à frente na série: Moon Over The Castle; Hiroyuki Noritake, um dos maiores bateristas da história japonesa, Takeshi Itoh e suas grandes composições, e o lendário pianista e compositor de Takarajima: Hirotaka Izumi!

Pergunte a qualquer figurão da música japonesa sobre estes nomes. A resposta será sempre uma bíblia de elogios e considerações! O álbum “simplesmente” conquistou o Japan Gold Disc Award¹ de 1986, e impulsionou o grupo em shows pelo mundo; com o destaque de shows nos EUA, casa global do Fusion Jazz — o que pavimentou um futuro de sucessos para outras bandas, grupos musicais, cantores e artistas solo japoneses! ¹S.P.O.R.T.S.

Takarajima: de sucesso a patrimônio cultural

©Hirotaka Izumi

Cada um destes nomes transformaria a música japonesa. Tornaram-se referências para músicos atuais e produtores em toda a Ásia. Foi nesse cenário que nasceu uma das músicas mais icônicas do Japão moderno: 宝島 (Takarajima). O que já era um sucesso cultural e comercial, se transformaria em algo ainda maior: um verdadeiro patrimônio cultural e afetivo do Japão. Um rito de passagem para quem deseja ser reconhecido como músico de verdade.

Em 1987, um dos grandes arranjistas orquestrais do Japão, seria o grande vetor da transformação de um ícone, numa passagem obrigatória para todo estudante Suisougaku (吹奏楽), bandas de sopro escolar. Toshio Mashima ficou encarregado de transpor a música para a lendária série de partituras, New Sounds in Brass (produzida pela Yamaha). Foi gravada originalmente pela mundialmente famosa Tokyo Kosei Wind Orchestra². ²Takarajima – Wind Repertory Project

A música original carregava guitarra, sintetizadores, e um piano que se integrou de forma implacável. Então, algo deveria ser feito para contemporizá-la ao regimento orquestral. Aqui entra um detalhe que aproxima bastante de nós brasileiros: a música foi transposta em… SAMBA³! Sim: agogô, caxixi, apitos de condução, e tudo mais! ³Takarajima

O papel da Yamaha e o New Sounds in Brass

©New Sounds in Brass

Para que tudo isto viesse a ser o grande ícone até os dias de hoje, várias áreas foram movimentadas, o que evidencia o sucesso da estrutura cultural japonesa. A Yamaha tinha o Projeto New Sounds in Brass, criado nos anos 1970 pelo maestro Naohiro Iwai (de quem Mashima foi assistente). Mashima foi trombonista de Jazz, e possuía toda a indumentária musical da área. O útil encontrou o agradável.

A Yamaha tinha o seguinte objetivo: atualizar o cenário das bandas de concerto de todo o Japão. Elas estavam estagnadas em segmentos militares e músicas tradicionais há anos. Aqui, dois projetos que, originalmente distintos, se cruzaram na história e geraram algo praticamente inédito no cenário musical global.

O projeto era referência no Japão dentro do cenário musical escolar, já que a área é utilizada neste ambiente há tempos! Foi aí que a gigante da música introduziu a música às escolas; elas recebiam a partitura acompanhada de um CD de referência gravado pela lendária Tokyo Kosei Wind Orchestra, regida por Naohiro Iwai — isso foi a primeira aula musical de muitos no Japão.

O samba que conquistou os estudantes

©Hibike! Euphonium

A música em regência de Samba quebrou o paradigma das músicas com menor cadência rítmica, esse foi o primeiro ponto positivo para os estudantes. O bell-up (levantando os trompetes e trombones em sincronia) se tornou um chamariz para a música. O solo em Lyricon de Takeshi Itoh foi outro ponto bem destacado na música, que passou a ser em saxofone alto.

Apenas o melhor aluno poderia fazê-lo, o que foi destacado no anime Hibike! Euphonium (mais disso à frente). Para uma música, é considerada habitualmente numa dificuldade intermediária de grau 3, porém, seu grande solo em saxofone é considerado um dos mais desafiadores para jovens músicos. Aqui, a faceta do sucesso é clara em todos os sentidos, virou modelo a ser copiado.

Com o projeto alcançando um grande número de escolas, público e privadas, há um aditivo que simplesmente impulsionou a música de forma irreversível: o All Japan Band Contest⁴. O evento é a maior competição entre bandas escolares e fanfarras diversas (como as tocadas em corridas de cavalos) do mundo! Cada banda performa duas músicas, uma obrigatória e uma livre; adivinhem qual foi a livre mais disputada até hoje? ⁴Competição musical, cooperação e comunidade

©All Japan Band Contest 2024

Sua música pode ter o sucesso que for, em qual gênero lhe preferir. Porém, tê-la em uma versão que virtualmente todo estudante de um país que participar de atividades musicais, ouvirá e tocará, é algo sem precedentes!

Há músicas que são rito de passagem para bandas, como ‘When The Saints Go Marching In’, que virou até música de torcidas pelo mundo, como a do Manchester United, mas nada de semelhante envergadura popular. Chegou ao ponto do hilário, pois a difusão foi ao habitual da vida de muitos estudantes que, ou tocaram, ou ouviram a música em apresentações em sua escola.

Quando os alunos descobriam que a composição foi feita originalmente para um disco em fusion jazz, o próprio Izumi, às gargalhadas, brincou com a situação em relatos no livro あるある吹奏楽部の逆襲 (“As histórias típicas da banda de sopro — a revanche”)!Hirotaka Izumi disse, em conversa relatada por músicos próximos:「真島さんには足を向けて寝られないよ!」“Não consigo dormir com os pés apontados na direção do Mashima-san!⁵”. Essa é uma expressão clássica japonesa de respeito e gratidão profunda. ⁵Hirotaka Izumi – Homenagem Especial em Memória

A influência na formação musical japonesa

©T-Square

Isso é um ativo que poucos no mundo musical já tiveram a honra em ter, duas delas com o próprio Izumi, já que outro clássico das bandas de sopro nasceu de suas composições: Omens of Love – Presságios de Amor (esse omens pode virar artigo da 5ª série).

E, falando das bandas de sopro, você entenderá que a música não é mera questão de gosto deste que vos escreve. É, de fato, a música nº 1 em uma votação⁶ de popularidade do repertório New Sounds in Brass. “Hoje em dia, há tão poucas pessoas que nunca a tocaram que ela é tocada por conjuntos de sopros e orquestras em todo o Japão“. ⁶[Enquete de Popularidade 1º~82º] Ranking de Canções de Wind Ensemble! Qual música todo mundo ama, seja original ou arranjada? | Classificação de Todos

“Mesmo que você esteja conhecendo alguém pela primeira vez, pode tocar junto imediatamente com ‘Takarajima’ (ou até decorar a partitura), tornando-a uma ‘língua comum’ e um número padrão no mundo da música de sopro.” — Chefe de departamento e compositor de banda de sopros de Ozawa.

Entre a ficção e a realidade

©Hibike! Euphonium

Hibike! Euphonium foi a testificação do impacto cultural horizontal no Japão, ao mostrar um bukatsu (部活), um clube de música em decadência e desorganização. Não é coincidência com o cenário de bandas escolares nos anos 80, que mencionei anteriormente na matéria. O fictício costuma se apoiar na realidade para criar um cenário ímpar, e revela algo que não é oculto, mas não compreendido por nós.

Ao ser transposta em arranjo orquestral, ao compasso e ritmo de Samba, despertou o interesse de jovens, tal qual em Hibike! Aliás, em sintonia com o preceito da composição de Hirotaka Izumi, ao evocar uma trilha de fácil memorização, juventude, aventura e esperança. A obra exibe um contexto, que pelo menos a nós brasileiros, parece apenas um enredo.

E se você questiona o sucesso da obra, suas três temporadas desde 2015 o contra-argumentam de cara! No episódio 7, o Colégio Kitauji se apresenta em um concerto aberto, e Haruka Ogasawara tem o papel de restabelecer a confiança do grupo, em um solo memorável, através de Takarajima!

Uma professora em forma de música

©Hibike! Euphonium

Sou suspeito como músico para falar da beleza que essa música possui, porém compreendo que, para além de mera renovação no portfólio, essa música consegue ser uma “professora” como poucas na música. A base inicial ensina todos os caminhos que você precisa saber em campos harmônicos e estruturas de acordes.

A versão original começa em Bb. A progressão principal caminha por:
Am7 – Dm7 – Cm7 – F7 – A# – C7 – F;
O pré-refrão prepara a transição com:
Bm7 – Bbm7 – Am7 – Dm7 – Gm7 – C – Fmaj7;
E a passagem rápida:
Em – A – Dm – Cm – Bm – G;
(seguido de Em – F#m – G – A);
O refrão traz a sequência mais densa:
D – F#m – Bm – Am – D7 – G – Gmaj7 – F#m – Bm – Em – F# – Bm7 – E – Em – A;
Depois volta à parte principal passando por A# – C – D, e a preparação final fecha com:
Bm – Bbm7 – Am – Abm – Gm7 – F#m – F.

Tem as sete maiores e menores, várias sétimas, sustenidos e bemóis. Quase tudo que um estudante precisa aprender de harmonia funcional está aqui.

A versão de Mashima é executada em D#, aí é só transpor tudo acima!

Legado e reinterpretações

©T-Square

A música flui, é bem mais leve do que vemos convencionalmente no Fusion JazzJapanese Soul Brothers que o diga — e ainda detalha como é uma música japonesa. Nunca será meramente um: (G – D – Em – C); terá um diminuto, uma oitava, sétima, harmônica… passando por caminhos sinuosos, mais belos que o habitual “reto a vida toda”.

Um acorde leva ao outro de forma natural, e estimula o músico a sempre estar atento, ainda que de uma forma incrivelmente tranquila. Difere e bastante de outras músicas que, por mais que usem diferentes acordes, utilizam escalas que assustam até veteranos — não queira tocar Bohemian Rapsody de cara!

E a riqueza de instrumentos que podem ser usados, como bem executado por Mashima na transposição da música original, é um prato cheio para que qualquer músico se esbalde; o que pode ser visto ao ver uma série de covers feitos, como este no vídeo abaixo.

Impacto cultural comparado

Imagina que no Brasil, estudantes da rede pública compreendessem e executassem Evidências, de Chitãozinho e Chororó? Mas, como nosso sistema de ensino renega a arte de forma veemente, não veremos isso tão cedo. Este é o impacto cultural que fãs mais assíduos da cultura japonesa não percebem, ou sequer conhecem — principalmente os que vieram pelos jogos, animes e mangás!

Ter uma música que seja ouvida por praticamente todo estudante desde o final dos anos 80, até os dias de hoje — e os dias que virão — é uma disseminação sonhada pelos maiores figurões da música em todo mundo! Gangnam Style do Psy pode ter sido um hit fenomenal, tendo sido assistido umas seis bilhões de vezes no YouTube, mas nunca terá um status de habitual no dia a dia de toda uma população!

Queen Bee, Yoasobi, Baby Metal podem ser as sensações do momento, mas, tenha em mente que Takarajima, de certo, é parte integral do imaginário musical deles. E se o artista começou em música nas escolas do Japão, e não autodidatas como eu e tantos outros, é parte fundamental de sua formação como músicos!

Em memória de Hirotaka Izumi (1958-2021)
和泉宏隆さん、どうもありがとうございました。