O mangá das três esposas que é mais complexo do que parece

Já imaginou como seria a vida se a poligamia, mais do que um estilo de vida, se tornasse uma lei? É exatamente sobre esse conceito que o mangá Hare-Kon, criado e ilustrado pela autora japonesa NON, se debruça.
No Japão, por várias questões, mas, principalmente, pela taxa de natalidade apresentando um nível expressivo de queda, foi autorizado o casamento de um homem com até três esposas.
Mas o que pode parecer apenas mais um mangá de harém talvez esconda uma crítica interessante sobre o amor e suas implicações. Ou talvez não.

Poligamia e os limites do amor
O principal tema é o próprio Hare-Kon, sistema que permite a um homem ter várias esposas. Desde o primeiro momento, essa ideia é abordada com um certo preconceito por uma grande parte da população.
Mas, afinal, qual o real objetivo da autora quando evoca uma questão dessa? Seria a problemática desse formato de relacionamento ou mostrar que, mesmo nessa configuração amorosa, é possível existir um amor genuíno (pro Pai de Todos funcionava)?
O fato é que é nesse contexto que a protagonista é inserida, adentrando não de cabeça por amor, mas para livrar a família de uma dívida. Acontece que seu futuro marido tem condições para pagar a dívida, contudo, exige que a garota se una a ele e suas outras duas esposas.
A partir daí, acompanhar essa dinâmica pode ser interessante e, em determinados momentos, cansativa e enfadonha.

Dependência, poder e liberdade dentro de um relacionamento
Outro ponto extremamente interessante de Hare-Kon é a forma como o marido expressa seus sentimentos, sendo, em muitas das vezes, como forma de imposição. É quase imperativo em suas orientações, controlando tudo e todas. Mas isso não quer dizer que ele seja uma má pessoa. Pelo menos, não é isso que o mangá mostra ao leitor.
Todavia, a grande questão da submissão, pelo menos por parte da protagonista, existe pelo fato de ela estar ali a fim de evitar a falência de sua própria família. E aqui entra mais uma crítica instigante: até que ponto uma escolha é realmente livre quando existe uma necessidade financeira envolvida?

O que define uma família?

Essa é a grande questão, não é mesmo? Família é somente laços sanguíneos ou onde nos sentimos em casa, com pessoas que nos entendem e nos acolhem verdadeiramente? No mangá Hare-Kon, a autora nos conduz a uma dinâmica nada ortodoxa para, quem sabe, apresentar um novo modelo de marido e esposa.
Afinal, se a ideia de família está na construção de afeto, convivência e responsabilidade, talvez possa funcionar de modos aos quais não estamos acostumados. Por fim, que fique claro aqui que eu não estou defendendo a poligamia (vai que as pessoas entendem errado tudo o que eu falei).
A ideia principal aqui foi destrinchar, mesmo que de maneira superficial, o que, talvez, possa ter sido o desejo da autora com esta obra. O intuito foi tentar trazer uma ótica mais complexa, além de simplesmente “uma história sobre um cara que quer ter várias mulheres o bajulando”.