Joguei Orbitals e preciso falar sobre esse exclusivo do Switch 2

Faz um tempo que eu não ficava tão ansioso para terminar um review quanto fiquei com Orbitals. O jogo chegou cercado de expectativa desde que foi anunciado no The Game Awards como exclusivo do Nintendo Switch 2, e depois de zerar a campanha inteira, posso dizer: valeu a espera, mas não é bem o que eu imaginava.
Antes de mais nada, um aviso importante para quem está pensando em comprar: você não joga Orbitals sozinho. O jogo é cooperativo do início ao fim, feito pela Shapefarm, que aqui entrega seu primeiro trabalho, com apoio da Studio Massket para as cutscenes, e publicado pela Kepler Interactive, mesma responsável por Expedition 33.
A jogabilidade
A primeira coisa que me chamou atenção foi a flexibilidade para jogar com outra pessoa. Tem o modo local em tela dividida, óbvio, mas também dá para jogar online sem que os dois precisem comprar o jogo. Uma pessoa pode baixar o passe de amigo de graça e entrar na sala de quem tem o jogo completo, ou então usar o Game Share, direto pelos recursos do próprio Switch 2, sem baixar nada. Joguei das duas formas e funcionou bem nas duas, e o save é compartilhado entre os métodos, então não corro o risco de perder progresso se decidir trocar de jeito de jogar de uma sessão para outra.
Na campanha, jogamos com Maki e Omura, dois exploradores espaciais que embarcam numa jornada para tentar salvar a estação espacial onde vivem, ameaçada de destruição por uma tempestade cósmica. Os dois partem em busca de ajuda para além dessa tempestade, enfrentando os perigos do espaço enquanto tentam garantir um futuro para o lar deles.
O que acho mais interessante na jogabilidade é que não existe uma divisão fixa entre os dois personagens. Ao longo da campanha, a dupla vai trocando de arma e de gadget (jato d’água, gancho, um raio que atravessa vidro) e qualquer um dos jogadores pode pegar qualquer ferramenta. Vocês decidem entre si quem fica com o quê em cada fase, o que deixa tudo mais dinâmico e também dá vontade de rejogar trocando as funções.
O gênero, no fim das contas, é majoritariamente plataforma e puzzle. Tem combate, tem tiro, mas é a menor parte do tempo de jogo. Além das fases lineares, a dupla também pilota a nave, explora o interior dela e libera minigames pelo caminho, a maioria pensada para jogar em cooperação ou competição, nada muito elaborado, mas gostoso o suficiente para valer a pausa.

As cutscenes parecem um anime de verdade, e isso muda tudo
Preciso dedicar um espaço só para isso, porque é o que mais me marcou em Orbitals. A cada nova fase, quando a cutscene entra, eu simplesmente esqueço que estou jogando um game. O estilo visual é uma homenagem direta aos animes dos anos 80 e 90: o traço dos personagens, o jeito como a luz bate nos cenários, os enquadramentos dramáticos nos momentos de tensão, tudo parece ter saído direto de uma OVA daquela época, com aquele charme meio granulado e expressivo que a gente associa a clássicos daquela geração.
E não é só a arte parada. A movimentação nas cenas, os cortes de câmera, até a forma como os personagens reagem emocionalmente aos acontecimentos têm aquele jeitão de anime old school, sem tentar imitar o estilo mais limpo e digital que domina boa parte das produções atuais. Assisti a algumas cutscenes mais de uma vez só para curtir o momento, sem pressa nenhuma de voltar ao gameplay.
E tem um detalhe que fez toda a diferença para essa imersão: a dublagem. Orbitals foi dublado em vários idiomas, incluindo português do Brasil, e dá para perceber que não foi um trabalho qualquer. Os dubladores entregaram interpretações que remetem exatamente ao estilo de dublagem de anime daquela época, com aquela entonação mais teatral, expressiva, quase exagerada nos momentos certos, do jeito que a gente ouvia nos animes clássicos dublados no Brasil. Não é a dublagem mais “realista” e contida que vemos em produções recentes. É proposital, e funciona muito bem dentro da proposta do jogo.
Se você é fã de anime como eu, recomendo prestar atenção especial nessas cenas. É um dos raros casos em que um jogo realmente entende a linguagem visual e sonora do anime, e não fica só na superfície usando “estética anime” como bordão de marketing.

O que funciona muito bem
A trilha sonora acompanha esse clima muito bem, e em nenhum momento da campanha eu me peguei entediado ou repetindo mentalmente “ah, de novo esse puzzle”. Para um jogo relativamente curto, isso é mérito.
Outro ponto que valorizo bastante é a acessibilidade. Os puzzles são bem pensados e as mortes acontecem, mas os checkpoints são generosos o bastante para eu não perder muito progresso quando erro, e os desafios pedem mais execução do que cálculo complexo. Se você quer apresentar o gênero cooperativo para alguém que não tem tanta intimidade com videogame, esse aqui é, sem dúvida, um convite gentil.
O que me incomodou
Preciso ser honesto: a narrativa é o ponto mais fraco do jogo. As informações chegam picadas, sem muito contexto, e cheguei perto do fim da campanha ainda tentando entender coisas que aconteceram lá no começo. Fui ligando os pontos aos poucos, interpretando o que dava para interpretar, mas mesmo o plot twist principal não é bem explicado. É uma pena, porque a premissa tinha um potencial enorme e a estética de anime pedia uma história à altura, só que esse potencial não foi bem aproveitado.
Também senti falta de mais variedade em alguns momentos específicos: a exploração do hub espacial às vezes se estica além da conta e fica repetitiva, e o jogo tem apenas dois chefes na campanha inteira. As batalhas contra eles são ótimas, então fica ainda mais claro que dava para ter mais desse tipo de conteúdo. E tem outro detalhe que incomoda um pouco quem comprou um Switch 2 justamente pelos novos recursos: fora o Game Share, o jogo praticamente não usa as funcionalidades exclusivas do console. Um modo mouse ou sensor de movimento combinariam perfeitamente com a proposta de Orbitals, e a ausência deles chama atenção — o que, aliás, me faz suspeitar que o jogo pode acabar chegando a outras plataformas no futuro, já que o vínculo dele com a Nintendo parece bem menos forte do que o de outros exclusivos anunciados na mesma época.

Vale a pena comprar?
Para mim, sim, com os pés no chão sobre o que esperar. Orbitals não vai reinventar a roda do gênero cooperativo, e isso já fica claro logo nos primeiros minutos. Mas como experiência para jogar acompanhado, com uma direção de arte belíssima que homenageia os animes clássicos, mecânicas flexíveis e uma dose de diversão que não deixa a peteca cair, ele entrega muito mais do que o preço pede. O jogo já recebeu indicações em premiações da indústria, o que mostra que a recepção da crítica também está alinhada com o que senti jogando.
O preço cheio gira em torno de R$169 na versão digital, com a mídia física saindo um pouco mais cara, vale procurar promoções antes de comprar, porque já apareceram descontos relevantes tanto no digital quanto no físico. Considerando tudo: a arte, a cooperação bem pensada, a acessibilidade para iniciantes e a diversão do início ao fim, mesmo com uma história capenga e poucos chefes, Orbitals fica com uma nota alta na minha conta pessoal: um jogo que recomendo sem pestanejar para quem gosta de anime, de plataforma e puzzle, e principalmente para quem tem alguém para chamar e sentar do lado para jogar junto.
Se você já jogou, quero saber a sua opinião sobre o final, porque, sinceramente, ainda estou processando algumas partes da história.