Ligados pelo Amor: o filme sobre uma família de escritores que mostra o amor sem simplificar nada

Ana
(Supervisora da redação)
@anapnf

Há filmes de amor que prometem emoção e entregam fórmula. E há filmes que chegam discretamente, sem grandes campanhas, e que ficam na cabeça por semanas porque tocaram em algo que parecia pessoal. Ligados pelo amor, de 2013, dirigido por Josh Boone, pertence com clareza à segunda categoria, e a disponibilidade gratuita no streaming atual é a oportunidade mais direta que o espectador brasileiro tem de descobrir um dos filmes de romance mais bem construídos da última década.

A família Borgens e o amor como tema de trabalho

A premissa de Ligados pelo Amor é deceptivamente simples, um ano na vida da família Borgens, três escritores tentando fazer sentido do amor enquanto navegam pelas suas próprias histórias. Bill Borgens, interpretado por Greg Kinnear, é um romancista de sucesso que passou os últimos dois anos se recusando a aceitar que o casamento terminou. Ele continua anotando cada detalhe da vida da ex-esposa Erica, interpretada por Jennifer Connelly, como se observar de longe fosse o suficiente para manter algum tipo de conexão.

A filha Samantha, interpretada por Lily Collins, transformou uma experiência de desamor precoce numa filosofia de autoproteção. Ela não acredita no amor duradouro e não está disposta a ser convencida do contrário. Lou, o filho mais novo vivido por Nat Wolff, está no polo oposto, completamente entregue ao seu primeiro amor por uma garota que vive em situação completamente diferente da sua.

Essa estrutura de três perspectivas distintas sobre o amor dentro de uma mesma família é o que dá ao filme sua riqueza narrativa específica. Cada personagem está num estágio diferente da mesma jornada, e assistir às três trajetórias em paralelo cria uma experiência que é ao mesmo tempo mais abrangente e mais íntima do que um único arco de romance convencional poderia oferecer.

Lily Collins e a performance que define o filme

Em 2013, Lily Collins ainda não havia construído a reputação que solidificaria nos anos seguintes com séries como Emily in Paris. Samantha Borgens era um papel que exigia um equilíbrio difícil, pois a personagem precisa ser cínica o suficiente para ser convincente como alguém que genuinamente não acredita no amor, mas humana o suficiente para que o espectador queira acompanhar o que acontece quando essa crença começa a ser testada.

Collins resolveu esse equilíbrio com uma contenção que às vezes parecia fria na superfície mas que acumulava profundidade ao longo do filme. A cena em que Samantha finalmente admite para si mesma que algo mudou é construída com uma suavidade que contrasta deliberadamente com a intensidade emocional que o espectador esperaria do momento, e essa suavidade é mais honesta sobre como pessoas com esse tipo de defesa emocional realmente mudam.

Logan Lerman e a simplicidade como instrumento

Logan Lerman, que havia acabado de fazer Percy Jackson, encontrou em Lou Borgens um papel que usou de forma diferente sua capacidade específica de parecer genuinamente jovem mesmo em situações emocionalmente carregadas. Lou não é um adolescente com problemas, mas um adolescente que descobriu o amor e está vivendo aquela descoberta com uma abertura total que os adultos ao redor dele perderam.

Essa qualidade específica de abertura sem ironia é difícil de interpretar sem que pareça ingênua ou manipuladora. Lerman conseguiu porque o roteiro de Josh Boone havia construído Lou como alguém que sabe que está se arriscando e escolhe o risco de olhos abertos, o que transforma a vulnerabilidade em coragem em vez de fraqueza.

A aparição de Stephen King

Uma das curiosidades do elenco é a participação de Stephen King como professor de literatura, num papel pequeno mas preciso que funciona tanto como homenagem ao fato de que Josh Boone é um fã declarado do autor quanto como comentário sobre a relação entre vida e ficção que o filme desenvolve ao longo de toda a narrativa. Os personagens de Ligados pelo Amor são escritores que processam o que vivem através da ficção, e ter o maior mestre do gênero em cena é uma piada interna que só funciona porque é discreta.

O amor como processo, não como estado

O que distingue Ligados pelo Amor da maioria dos filmes de romance é a recusa em tratar o amor como destino a ser alcançado. Para Bill, o amor é um estado do qual ele não consegue sair. Para Samantha, é uma armadilha que ela quer evitar. Para Lou, é uma descoberta que está acontecendo agora, em tempo real, com todas as incertezas que isso implica.

O filme não resolve essas três perspectivas num único ponto de vista correto. Sugere, com a elegância que Josh Boone demonstrou nesta estreia, que o amor muda de forma dependendo de onde você está na vida, e que nenhuma das formas é errada, apenas diferente das outras.

Por que funciona para assistir sozinho ou a dois

Ligados pelo Amor tem a qualidade específica de filmes que funcionam bem em contextos de visualização completamente diferentes. Assistindo sozinho, há espaço para identificação com qualquer um dos três personagens dependendo do momento de vida do espectador, e essa flexibilidade de ponto de entrada é rara. Assistindo a dois, as três perspectivas sobre amor criam terreno natural para conversa sobre o que cada um reconhece em cada personagem.

Com 96 minutos de duração e disponível gratuitamente no streaming atual, é um dos melhores investimentos de tempo disponíveis no catálogo de romance para quem quer algo além da comédia romântica convencional.


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