Vamos Falar de: Re:Zero (De novo)

Sempre me lembro daquela noite de domingo de abril, em que começamos a acompanhar Natsuki Subaru nesse novo recomeço do zero, num novo mundo desconhecido, ou conhecido? Com o término da quarta temporada, eu fui atrás para ler meu antigo artigo da versão de diretor da primeira temporada e agora, com todo o conhecimento sobre a obra adquirido nessas temporadas lançadas e com meu limitado conhecimento de escrita, faz-me reafirmar com propriedade que Re:Zero é a história de Natsuki Subaru.

Brandon Sanderson é um prolífico escritor norte-americano, cujo futuro trabalho mais conhecido é Mistborn, já que ganhará uma adaptação para telonas com o roteiro escrito pelo próprio autor. Além de escrever vários livros, também ministra aulas de narrativa e produção de histórias, inclusive gratuitamente no YouTube. Na playlist com as palestras mais recentes, ele aborda o conceito de Big P e Small p, que irei traduzir como: grande narrativa e pequenas histórias. A grande narrativa é a história da obra, o que você aconselharia um amigo para ver a mesma, já as pequenas histórias são narrativas que fazem você ficar e acompanhar a mesma, esperando algo no futuro. Em Re:Zero é meio óbvio que é a história da superação de Natsuki Subaru, afinal de contas O Recomeçar do zero nesse novo mundo foi dele, então esperar algo diferente na obra é errôneo pela explicifidade do seu começo, o que me faz entender a principal crítica dos detratores da obra, pois, não simpatizando com o protagonista, possivelmente não irá gostar do resto.

Já as pequenas histórias podem ser focadas apenas na construção do mundo, não que haja desenvolvimento de personagens sem abrir nossos horizontes, mas tudo que não está envolvido diretamente com Subaru apresenta o mundo da obra, seja a história da lenda dos onis azul e vermelho das maids, o culto da bruxa, seus apóstolos e as próprias feiticeiras; ou o próprio jogo político de Lugunica, que foi o primeiro ponto motriz da história, além do próprio santuário da segunda temporada e todos os seus desencadeamentos posteriores; a história pregressa do Otto, a companhia Muse de Priestella, os demais reinos com seus mestres de armas e a principal história dessa última temporada, que é a tríade da Torre de Vigia das Plêiades, todas histórias interessantíssimas, que expandem nosso conhecimento sobre essa obra.

Todas essas narrativas enriquecem o mundo e paralelamente aumentam o desafio para o Subaru, porém o anime não a desenvolve completamente, na primeira temporada, pelo simples fato de não saberem que teria uma próxima, e nas demais para focar nas desventuras do protagonista, mas seria legal se tivesse uma história focada nesse worldbuilding, daí entra Re:Petit.

A primeira temporada de Re:Zero kara Hajimeru Kyuukei Jikan (Break Time) coloque o subtítulo que quiser, seguia bastante o conceito de conteúdo expandido de uma obra original da Kadokawa, em que vemos os personagens da obra-mãe fazendo coisas impensáveis em suas realidades, porém isso mudou na segunda, quando começou a apresentar dinâmicas de outros personagens, assim crescendo a importância dessa obra a ponto de a revelação do Al (debaram) ocorrer nesse spin-off. Uma informação importantíssima ficou exclusiva para essa mídia, que não possui localização para, no mínimo, inglês, restando aos fãs procurarem legendas ao bel-prazer em outros canais, sorte que está gratuito no YouTube. Claro que não é o único responsável, mas essa ideia de atribuir ao spin-off informação indispensável vem desde Isekai Quartet.

Agora, focando na quarta temporada, eu sinto muito um sentimento de egotrip do autor, já que esse arco na novel foi escrito justamente no período do lançamento do anime, então é esperado que ele repense sobre sua história, principalmente lendo os comentários dos fãs dos animes, tanto da primeira temporada, quanto na reexibição, pois, já entrando nos spoilers, eu duvido que o Tappei tivesse a ideia da gula ir atrás das memórias do Subaru por nada; as demais revelações eram esperadas por terem tido informações apresentadas antes, até o Volcanica, mas a ideia das memórias só serve para reforçar o quão complexo é o personagem e o porquê é querido. Eu imagino Nagatsuki Tappei escrevendo isso, tendo o hate do Twitter na mente, só para mostrar o Quão épico, para não dizer outra coisa, é seu protagonista.

Voltando ao worldbuilding, especificamente nessa temporada, gostei do fato da apresentação da tríade da torre de maneira fundiciária, já que, no nosso mundo real, parte da história utiliza moedas para datação, seja de impérios, seja por figuras históricas, fazendo essa apresentação bastante crível.

Finalmente chegando à polêmica, ou nem tanto, pois waifu, waifu mesmo, só tivemos a Shaula, isso se você for alguém decente, pois a Eridna não entra, mas agregando esse tópico com as demais personagens e voltando no conceito de grande narrativa e pequenas histórias, todas as personagens femininas foram bem desenvolvidas ao longo das quatro temporadas, desde a estrela Emilia até, a apagada nessa temporada, Felt, já que ambas foram aprofundadas e enriquecidas durante suas aparições na série, inclusive naquele conceito de construção do mundo. Tirando a Emilia pós-santuário, em que seu desenvolvimento está atrelado ao desenrolar da narrativa, todas apresentam algo que agrega a lore do mundo, seja conceitos conhecidos, como os experimentos da Echidna que afetam desde a Beatrice até a Anastasia, o jogo político do mundo com a Crusch e a Felt, o mundo além das fronteiras, territoriais nesse exemplo, conhecidas com a Priscilla, focando nela um pouco, como ela é rica, seja personagem ou personalidade; as próprias bruxas com ideias e conceitos tortos, não moralmente falando, até mesmo as maids de Roswaal possuem histórias que agregam bastante à narrativa, fazendo delas algo a mais que rostinhos bonitos.

Um outro conceito de que Sanderson, mas é algo popularesco, é do estilo do autor da história, digo popularesco, pois, possivelmente, George R.R Martim disse algo parecido, que existem dois tipos de escritores: jardineiros, aqueles que deixam a história fluir naturalmente, e arquitetos, aqueles que planejam tudo da sua história. Sanderson altera os nomes para Descobredores e Outliners, sendo o último termo próximo a arquiteto, mas maleável para alterar suas metas. Ele também fala que é possível ser os dois, a depender do “cozinheiro”, pois um escritor pode ter uma ideia fixa do ponto final que quer chegar, mas não definir o como chegar, e eu vejo Tappei seguir esse exemplo, pois, quando ele “exibe” seu objetivo, um caso nessa temporada: resolver o problema causado pelos apóstolos indo até a torre e se encontrar com a sábia, Tappei define o objetivo primeiro para então contar a história de como foi chegar até lá e daí todas as reviravoltas sendo apresentadas, como a sábia lasciva.

Eu me inspiro bastante nesse detalhe no Tappei que é encontrado em outras histórias dele, sempre um objetivo claro para trabalhar em pequenos arcos e apresentar/aprofundar personagens, Re:Zero é o filho pródigo dele, que o fez chegar ao estrelato, e Senyoku no Sigrdrifa a “enterrou”, mas o desenvolvimento de personagem principal é o principal forte dele, talvez por isso que Vivy seja tão bom.

Retornando ao foco principal, Re:Zero poderia ser facilmente encerrado nessa temporada, pois fechou bem, com uma reviravolta sólida e o payoff que muita gente querida foi atingido aqui, o que me gera receio para o que vem pela frente, pois uma franquia longa sempre tem seus engasgos e vinte anos é muita coisa para novos fãs adentrarem na obra, claro que ainda tem muita coisa para se mostrar, mas temo que tenha pouca coisa para ver.