Por que Jujutsu Kaisen conquistou as mulheres — e o que os números dizem sobre esse fenômeno

Se você já viu uma menina ou mulher adulta maratonando Jujutsu Kaisen em tempo recorde, saiba que isso não é coincidência nem exceção. É dado. A obra de Gege Akutami se tornou um dos títulos com maior engajamento feminino ativo entre todos os shonens em circulação — e as pesquisas japonesas, as mais sólidas disponíveis sobre o assunto, confirmam o que muita gente já percebia de forma anedótica nas escolas, nas redes sociais e nas conversas do dia a dia.
A referência mais citada é a pesquisa da Nikkei Entertainment de dezembro de 2023, realizada com cerca de 50 mil respondentes no Japão sobre o chamado oshikatsu — o apoio ativo a obras favoritas via merchandise, eventos e redes sociais. Jujutsu Kaisen terminou em primeiro lugar no número total de fãs entre todas as marcas de entretenimento avaliadas, primeiro entre o público feminino e segundo entre o masculino, atrás apenas de One Piece. Uma pesquisa mais recente, o Oshikatsu MAP Outono 2025, com cerca de 4.400 participantes, refinou o retrato: a divisão ficou em 60% homens e 40% mulheres, com idade média de 28 a 29 anos — bem mais jovem e equilibrada do que Demon Slayer, cuja média é de 39 anos, ou One Piece, com 38. No contexto japonês, esses 40% de mulheres têm peso desproporcional porque são elas que mais impulsionam o consumo de produtos, a participação em eventos e a discussão online.
Os dados de engajamento nas redes sociais contam uma história ainda mais inclinada. Uma análise de interações no X/Twitter, reproduzida por veículos especializados no Japão e internacionalmente, mostrou Jujutsu Kaisen com 66% de engajamento feminino contra 34% masculino. Para comparação: Haikyu!! registrou proporção similar, com cerca de 65% de mulheres; Demon Slayer e My Hero Academia ficaram em torno de 56%; One Piece inclinava para os homens com 59%; e Dragon Ball era esmagadoramente masculino, com 87%. Esses números de redes sociais não medem quem assiste, mas quem fala, compartilha e se envolve ativamente — o que os torna um termômetro preciso da “paixão” em torno de cada obra.
Por que isso acontece com JJK especificamente? A resposta não é simples, mas alguns fatores se combinam de forma muito clara. O primeiro e mais óbvio é Satoru Gojo — personagem que dominou enquetes de popularidade, foi eleito o “Top Anime Crush” da Crunchyroll e gera volumes absurdos de edits, fanart e engajamento. Mas reduzir o fenômeno a um personagem atraente seria subestimá-lo. Jujutsu Kaisen oferece profundidade emocional e psicológica real: temas de trauma, perda, sistema corrompido, amizade frágil e consequências permanentes. A relação entre Gojo e Geto, por exemplo, carrega camadas narrativas que ressoam muito além da luta. Personagens femininas bem escritas como Nobara Kugisaki e Maki Zenin também contribuem — Nobara em particular tem falas icônicas sobre amar a si mesma em qualquer versão, o que gerou identificação intensa entre leitoras e espectadoras. Some-se a isso a animação de altíssima qualidade do MAPPA e o ritmo que convida à maratona, e o resultado é uma obra que funciona simultaneamente como shonen de ação e como história com peso emocional genuíno.
No Brasil, o cenário acompanha a tendência global. A Crunchyroll tem destacado o crescimento do consumo de anime por mulheres no país, e dados da plataforma apontam que pelo menos 44% dos fãs adolescentes de anime globalmente são mulheres. A presença feminina no fandom de JJK é visível nas escolas, nos eventos como a CCXP e nas redes sociais — e não se trata de um boom passageiro. Dados de demanda global ligados ao Guinness e à Parrot Analytics indicam que mais de 70% da audiência de JJK em algumas métricas cai na faixa de 13 a 22 anos, o que coloca a obra no centro da experiência cultural da Geração Z de forma muito concreta.
Jujutsu Kaisen não é mais “um shonen de meninos”. Nunca foi, se os dados têm algo a dizer. É uma das obras mais equilibradas demograficamente da história recente do anime — e o engajamento feminino que move merchandise, discussões e maratonas não é um efeito colateral da obra. É parte estrutural do que ela é.