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Artigo

O uso de IAs no jornalismo — novos tempos, novas ferramentas

Josué Fraga Costa
©Anime United

Nada como um dia após o outro, não é mesmo? Por conta de uma dica de nossa maravilhosa kami-sama, Ana, decidi abrir um pouco o jogo com vocês sobre um tópico que ainda não havia tido motivos para trazer, mas que é importante para o nosso dia-dia: IA! Acreditem, porque uso travessões (—) nos textos.

Minha chefinha — irmã mais velha de nós que é — temeu que isso parecesse coisa de IA, e afugentassem vocês, nossos leitores (fofinha demais)! Só que, não é a primeira vez que vejo isso dentro do jornalismo, muito menos no de entretenimento, como o que fazemos. É uma preocupação válida para que se mantenha algum nível de organicidade no meio.

As opiniões, o que estamos transmitindo, a colocação disso tudo realmente importa. Percebo, porém, que muita gente ainda não virou a chavinha para a ferramenta que as IAs são, e o que elas podem agregar em várias atividades. E não falo em meramente ser algo gerativo, como esta imagem abaixo da Aston Machan (sim, é IA). Nem mesmo uma ferramenta para resumir coisas, para pessoas com um claro quadro de TDAH ou ineptitude.

©Uma Musume: Pretty Derby/Aston Machan

As IAs são ferramentas capazes de processar e relacionar grandes volumes de informações, dados e referências. Podem fazer cálculos complexos rapidamente, pois já possuem os dados referentes. Estão sendo capazes de gerar imagens por serem alimentadas. Já são usadas em jogos há tempos, e aprendem com o jogador desde sua primeira concepção.

Então, não se assustem com o avanço dela e sua capacidade de aprendizado. Eu me assustaria com o descaso no uso dela, nesses vídeos bobos que tem aos montes por aí — e ainda reclamam que não é tão real assim. Claro que não é, seu tapado! Ou mesmo, para tentar resumir algo que não dá pra ser resumido, por conta da impaciência que as sociedades e seus grupos estão tendo ultimamente.

Não se tem a boa e velha digestão: mastigando, sentindo o gosto em toda a língua, descendo tranquilo na garganta, e saciando o estômago! Informações não bem digestas, têm o mesmo efeito de uma comida não mastigada, como uma parte apimentada que não foi dissolvida pela saliva, caiu no estômago, e deu aquela ardida.

Uso Nº1: acesso às informações

Shirobako
©Shirobako

Muitas coisas são horríveis de pesquisar nos buscadores convencionais, pois até você ter o que realmente importa, pode levar tanto tempo quanto apurar documentos em papel de um registro num cartório em Montividiu (não tá errado, é aqui em Goiás) de 1945. Isso se tratando de informações no próprio idioma, pois quando é sobre algo estrangeiro, você sequer sabe por onde começar.

Aqui trago o exemplo de dois artigos que eu mesmo fiz recentemente na Anime United, que não são peças opinativas, são praticamente documentários com dados, citações literárias, e citações literais, também. Na matéria sobre Takarajima ( 宝島) eu trouxe falas de seu compositor com relação à percepção do impacto de sua música através das bandas de sopro.

Trouxe um livro que fala especificamente sobre as Suisougaku (吹奏楽), e o impacto da música sobre o povo japonês através deste meio cultural. Mostrei o projeto New Sounds in Brass, que está no ar desde 1972, e sua influência no ensino musical japonês. Algo que é citado como “excesso de dados”, coisas que para muitos nem seria necessário, mas que para mim, é fundamental!

©New Sounds in Brass

O que eu sabia sobre a música? Composta pelo grande Hirotaka Izumi, de um dos grupos musicais mais importantes da música japonesa, T-Square. E todo aquele trecho sobre as notas e o arranjo harmônico — aqui meu ouvido absoluto teve algum uso. Sabia que ela existia no cenário de bandas escolares, e nem foi por Hibike!

Mas, e os meandros? Aí entram os sites que exibi nos rodapés, que as IAs exibiram para mim, e eu como jornalista, fiz o que um verdadeiro jornalista faz: checar as fontes! Dados também são coisas bem complicadas de se achar, pois nosso meio de impressa falha há tempos em trazê-los de fora. No texto ‘Brasil como ponte’, dados sobre o mercado francês, preços de ingressos da grande Comiket, não existem por aí.

Então, o cabeçudo e curioso aqui tem de ir traduzir as páginas para português (o traduzir páginas automaticamente não ajuda muito) pelas IAs. Não me julgue se eu não sou um poliglota que fala 10 idiomas e tem PhD em comunicação social (se é que existe). A IA faz e bem a pesquisa, cabendo a mim: apurar, contemporizar, estudar o caso.

Uso Nº2: ortografia, ritmo e atenção

Servant x Service
©Servant x Service

O uso dos travessões começou em mim por uma bela duma “comida de rabo” que uma antiga professora de português me deu — quem aí tem professores antigos que leem suas matérias? Eu tenho! Antigamente, meus textos não tinham respiro correto, e meu grande e querido mestre da comunicação desportiva, Sérgio Milani, me deu um conselho: parágrafos com 4-6 linhas, ESPAÇO, novo parágrafo.

Aí, veio meu livro, e tive que fazê-lo de forma menos animal e visceral. Uso IA há 2 anos e pouco, algumas para me darem uma base legal para enviar ao meu querido PH, o outro supervisor da redação junto a mim (seria legal postar uns textos de forma direta). Quando faço uma matéria, por conta das outras atividades que tenho, posso levar de 4 a 6 horas só nela, e erros de digitação ou um pensamento intrusivo, vêm aos montes.

E corrigir logo de cara, não é muito rápido. E vez ou outra, ainda sobra um errinho bobo. A IA faz isso sem problema algum, e até causa um efeito interessante: ela aguça sua atenção aos detalhes gerais, e te habitua mais ao bom e correto uso do português! Detalhe: eu mesmo implemento a correção apontada, não copio e colo.

Bakuman
©Bakuman

Deixa-me dar um puxão de orelha em alguns de vocês, e deixar o texto como exemplo. USAR TRAVESSÃO, PONTO-VÍRGULA, RETICÊNCIAS, NÃO É COISA DE IA! Cara, venho fazendo textos gerais há uns 15 anos, os últimos quatro aqui na Anime United; sou o único maluco que usa: dissera, fora, bancarrota — até as IAs que uso me taxam como arcaico — o Grok adora me corrigir nesse ponto.

Eu e tantos outros que semanalmente criamos os mais diferentes artigos sobre um mundo de coisas, temos a nossa marca bem fincada, com bastante tempo e exemplos para exibir. Dá pra saber muito bem se um texto é IA plena ou não: chame a pessoa para discutir o tópico que ela supostamente trouxe.

Não é meramente pelo bom e necessário uso do português! É tiro e queda, pois é o que está fazendo marmanjão na OAB tomar esporro ao não saber discutir a própria pauta, pois ele não a fez! Se até altos magistrados por aí estão errando entre, mas ou mais…

Uso Nº3: trabalhar ideias dentro do próprio escopo

©Aggressive Retsuko
©Aggretsuko

Vendo um dos primeiros episódios de Dr. House, uma frase me chamou a atenção: “o cérebro é um emaranhado de fios soltos”! E este cabeção aqui pensa a todo momento, ele não fica meramente jogando impulsos aos órgãos do corpo. Michael Jackson era um desses que tinham epifanias constantes, e escrevia música como você vê story de Instagram.

Muitas músicas dele foram feitas de momento, tão rápido era o sujeito. Mas, muitas você nunca ouviu, pois nem foram lançadas de tão ruins. Pessoal, no meio de tanta ideia boa, surgem muitas horríveis e questionáveis. Se você não for um débil mental e não compartilhar as mesmas cinco células de neurônio em seu cocuruto, as IAs são incríveis para te organizar, lembrar, e reforçar seu ponto de vista em si mesmo!

Eu acreditava que Takarajima era um “rito de passagem”, e vendo que Euphonium trouxe isso no episódio 7, com a apresentação no metrô, a IA trazendo a informação, me fez ver que a minha opinião não era tão desajustada assim — eu não tirei isso de você sabe onde.

Hibike! Euphonium
©Hibike! Euphonium

Um exemplo disso está ocorrendo enquanto faço a matéria, na quinta, 24 de setembro. Eu trarei uma matéria em breve sobre um equívoco que se tem sobre a indústria de animes, a ideia nasce quando vejo um vídeo no YouTube chamado “The Unfortunate Reality of Modern Anime”, e vejo as opiniões do sujeito.

E relaxem, não será um texto que atiçara minha úlcera. Pelo contrário, será para esclarecer o famoso Efeito Mandela quanto ao tópico. Eis que veio o fio da meada, quando lembrei de um certo anime que causou um dos acontecimentos mais dantescos da história da animação.

Eu não lembrava por nada o nome da obra, mas quando citei “como no caso daquele anime de mahou shoujo, bancado por uma indústria de brinquedos;” a IA veio com a resposta: Minky Momo. Vocês vão gostar, pois a história da produção da obra mostra que essa indústria é tudo, menos nova e infalível. A ideia toda estava aqui dentro da cachola, só precisou de um empurrão certo!

©Minky Momo

A capa desta matéria, que nasce numa janela de Overton cômica, quando minhas antigas capas, digamos… não agradaram muito nossa chefia, e me fez reformular a coisa com ideias que tinha em mente, que a IA organizou, trabalhei-as no Canva, e voilá! Da mesma forma que elas trazem fontes diversas, elas trazem percepções de pessoas reais sobre tópicos.

Não há como elas terem concepções sobre cultura, mercado e público como eu tenho. Na própria matéria de música, elas teimavam comigo, músico experiente, quanto ao Masahiro Andoh ser ou não um dos melhores músicos do Japão. Ou mesmo a teoria musical que apliquei.

Porém, é claro, elas têm algo que, por exemplo, eu não tenho: saber ser sucinto e organizado. Aqui uno o útil ao agradável, e não me sinto manipulado por ideias quaisquer que sejam, pois eu quem faço a bagaça acontecer, e eu decido se é ou não aplicável. A ferramenta é ela, não eu! Talvez isto seja o grande ponto que trago aqui, para quem ainda torce o nariz.

Uso errado e ferramentas úteis

©Barakamon

Não foi até outro dia que vejo Record, Band, e outros meios tradicionais, usarem IA e sinalizarem seu uso em fotos e cenas explicativas — que ponto doloroso ver onde o fotojornalismo chegou. Até áudios modificados de vítimas que não querem ser identificadas estão em uso pela IA. 

Quando entrevistei a mangaká Sté, autora de The Demon Blacksmith, ela mesma citou que a IA é uma ferramenta que veio pra ficar, mas que não substitui os vários processos de um autor, e certamente, não substitui o que faço aqui! Elas, como demonstrei ao longo desta matéria, são boas em traduzir textos com mais exatidão e contemporização, trazem fontes expandidas, pontuam erros com mais facilidade, mas não têm o ideal que possuímos para transmitir algo.

Ou vocês acham que a famosa mensagem de “a IA pode cometer erros” está ali por que quer? Aqui eu recomendo que, se o objetivo que tens está na escrita, você pode usá-la sem medo algum. O limite, ainda mais com comunicação seria: não invente fotos que não existam, com toda certeza a imagem do que você quer está por aí — deixa de preguiça; trazer as fontes que você viu pela IA, dá mais veracidade e base para seu argumento.

©Kakushigoto

Dentre as IAs, te dou até os agentes e como funcionam:

Grok: perdeu aquela esclerose que ele tinha e ficou mais certinho, porém sendo parte do X, achar tuítes de qualquer conta é uma boa forma de encontrar informações diversas, traduzi-las com mais fidelidade, e mostrar alguns metadados destes tuítes e suas respectivas contas; além de ser bom em pesquisar fontes, ler textos em documentos — e se você o tiver desde quando era doidão, ele ainda mantem o tom escrachado dele, pelo menos um pouco.

Gemini: lê bem os textos, mas a busca por dados dele funciona melhor no buscador da própria Google, o modo IA é o Gemini. Faz imagens muito boas, principalmente as geradas com fins realistas. O modo IA do Google é bom para ver os dados do YouTube, e traz os links que você quer por ele. Só que ele é meio sonso; ele sabe gerar imagens que você pede, mas se você não selecionar a opção, ele insiste em dizer que é um modelo de texto, e as vezes não lê links externos.

Copilot: se você usa o Edge, ele lê as abas que você está usando; uso bastante para rever minha ortografia e ver os subtítulos. É um leitor assíduo, te pontua bem a caligrafia, e tem uma análise mais ponderada e passiva. Ele é bem subestimado, mas também desperdiçado pela Microsoft, já que seu uso poderia ser maior se não atrelado ao Edge, meramente. Faz imagens até ok, mas estão com aviso de “feita por IA”.

GPT: ele é mais completo, mesmo no plano gratuito. Traz análises maiores e mais detalhadas, lê melhor os links e tem uma boa base de dados para leituras diversas. Às vezes, parece uma secretária petulante, querendo corrigir bobeiras que só ele viu, e que acha preocupantes. Mas, como as outras citadas, faz bem o papel de bom informante de dados, e coloca boas recomendações, quando você pede pra pesquisar corretamente.

O veredito de Minerva

The Great Pretender
©The Great Pretender

Para a comunicação, basta usá-las bem: pesquisar acontecimentos, dados variados, traduzir material em língua estrangeira e pedir informações sobre palavras e colocações. Eu só falo inglês e espanhol, então, algo vindo do Japão, como “「真島さんには足を向けて寝られないよ!」 “Não consigo dormir com os pés apontados na direção do Mashima-san!””, parece loucura… até que você pesquisa o contexto, e ganha conhecimento sobre ele.

Ela pode tentar copiar a ideia, mas não o ideal! O meu nível de acidez, leitura de mercado, percepção cultural, é meu tão somente. Quem não tratar as IAs como meio, aí sim, se perderá de forma patética. É uma ferramenta como qualquer outra, mas precisa ter seu uso definido como meio, não solução ou substituição.

Agora vocês sabem o que eu uso e como uso, e se quer debater os tópicos que trago para saber exatamente se sou eu por de trás do teclado ou não, pode vir! Não tenha medo do bom uso do português, ou do “excesso de dados”. Tenha medo de quem usa IA por preguiça, que não saiba defender o próprio ponto, e que não esteja preparado para um bom debate de ideias!