Lucky Star – Análise definitiva! Sem dúvidas, um neoclássico a ser visto!

Josué Fraga Costa
Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

Muitas vezes é complicado tentar analisar uma obra por ela própria, algumas são tão extensas que para se ter uma visão mais ampla e analizada seria necessária uma quantidade de tempo insana para ser o mais preciso, estou falando de você One Piece. Outras obras são tão específicas que ficaria difícil definir sobre o que pontuar e extrair dela, tipo o primeiro filme a passar num cinema no mundo que mostrava a chegada de um trem a estação a todo vapor em algum canto da Europa, o que isto seria útil para pessoas em outros contextos? Complicado para dizer o mínimo. Outras são tão deploráveis e mal feitas que sequer prestariam para análises zueiras no YouTube. Já outras já se passaram a algum tempo e estão fora do imaginário popular, ou então em nosso caso, ninguém se interessou e trouxe para o Brasil varonil, sendo encontrado por nós na Internet de maneira avulsa por um motivo ou por outro. Lucky Star entra neste quesito e é um exponente bem grande dele.

Eu conheci esta obra prima lá por volta de 2014 em uma de minhas andanças na net, mais precisamente a encontrei pela abertura que se tornou um marco dentre as tantas aberturas de animes, e comecei a ver os episódios, foi como um doce que você encontrou em uma viagem de ônibus em algum canto deste Brasil imenso, que você não tinha ouvido falar até então mas que se interessou de imediato. E até entendo do porquê de não o ver regularmente em todo o lugar, na mesma segue com esta obra, é bem específico que de fato o tamanho de seu nicho não atrairia a tantas pessoas para se tornar economicamente viável, ironicamente, esta peculiaridade é o que torna Lucky Star algo completamente diferente do habitual que encontramos em animes por aí. Então, se junte a mim neste texto e descubramos juntos o que faz de Lucky Star algo digno de ser analisado, discutido e divulgado até os dias de hoje.

O que é Lucky Star?

Lukcy Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

Se eu pedir para definir uma obra em uma dissertação para vocês, quais seriam os tópicos de destaque para ela? Personagens e enredo seriam alguns deles, certo? Mas como isso tudo fora feito e originado? O que está por trás de tudo isto, ou seja, o NÚCLEO disso tudo? Se pegarmos por baixo, Lucky Star é um anime ‘slice of life’ e escolarque reúne colegiais em uma sequência de acontecimentos que envolvem suas personalidades. Resumindo, nada de diferente do que se vê numa penca de animes que na hora surgem na cachola, certo? Mas só isto não explana inteiramente o que é Lucky Star. É razoavelmente simples pegar as informações que as fandoms disponibilizam na net, e é incrível como eles descobrem desde a idade e altura, até o tipo sanguíneo e gostos culinários, que aliás, é um trabalho que reconheço ser incrível para a obra em si e seus fãs por torna-lá mais próxima dos fãs e também mais viva. E viva é a palavra que uso para definir esta obra prima, VIVA. Animes Slice of Life (pedaço da vida) tendem a serem muito mais homogêneos e parecidos entre si, tanto quanto os animes Shounen que tem um personagem com uma força absurda e vai aumentando sua força com muita dedicação e bla bla bla, além de terem muitas pitadas da cultura japonesa em si, o que acaba sempre não interessando ao escopo maior dos fãs de animes por ser algo mais em específico e muito diferente em si de sua própria cultura, mas, quando bem formulado e colocado podem atrair a uma turma de maneira incrível.

Lucky Star nasceu como um mangá ‘Yonkoma’ (四コマ漫画) em 2003, e pra quem não sabe, o termo significa quatro quadros, Yonkomangá seria mangá em quatro quadros, e antes que você se confunda, NÃO, não são somente quatro quadrinhos como se fosse um cartoon de jornal ou livro de português. É uma estruturação dentre as várias que existem nos mangás que acaba dando um tom e ritmo da história completamente diferentes dos mangás mais vistos, principalmente os grandes mangás que recebem adaptações para animes. Esta estrutura se baseia no ‘Kishōtenketsu’ (起承転結) que consiste em quatro etapas para a construção de um conto, sendo elas;

  • Ki (起): A introdução, onde os personagens aparecem, à época, e outras informações importantes para o entendimento da história;
  • Shō (承): Se dá a partir da introdução e caminha rumo ao ápice da história. Não acontece nenhum evento importante;
  • Ten (転): Apresenta um tópico novo ou desconhecido. É o ponto crucial da história, conhecido também como ‘yama’ (ヤマ) ou clímax;
  • Ketsu (結): Resultado, conhecido também como ‘ochi’ (落ち) ou final, fecha a história mostrando a conclusão.

    Yonkoma
    ©Yonkoma

Normalmente, vemos histórias onde um universo é criado entorno de personagens que se estruturam e se relacionam, atuam em um contexto num mundo estruturado de acordo com os personagens ou vice-versa, que tem um objetivo ou alvo e nisso há um desenvolvimento envolvendo a todos estes elementos. Aqui temos um conto onde os mesmos são apresentados, se é apresentada a narração e direcionamento de um tema ou alvo, este tema é desenvolvido e o final é descoberto e alcançado, basicamente, miniestórias são trabalhadas dentro de um mesmo capítulo no qual não necessariamente estão correlacionadas entre si mas que criam a alma do negócio. E aqui é que começa a ser definido o que de fato é Lucky Star, veja, eu simplesmente amo histórias com personagens ideais, não perfeitos, mas que se é claro quais são seus objetivos e seu desenvolvimento, sua personalidade que é refinada ao longo dos episódios, e ver como tudo ao seu redor altera ou o altera de alguma forma. Amo histórias com um começo, meio e fim, pois você acompanha e se imerge nisto de uma maneira incrível, mas, também curto estórias onde não tem um segmento a se seguir, vou dar um exemplo para ficar mais claro; One Piece é sobre piratas indo buscar o tesouro One Piece, nisso toda a trupe do Luff literalmente embarcam mundo afora para isso e tudo vai se desenvolvendo em relação aos personagens e os acontecimentos que os rodeiam.

Lucky Star não vem para introduzir uma narrativa deste tipo, e não é ruim, eu mesmo tinha uma opinião diferente a respeito do segmento Yonkoma por não encontrar sentido numa estória sem pé nem cabeça, onde nada evoluía ou tinha um objeto e objetivo em questão. Mas vendo cada vez mais histórias assim, hoje minha opinião já é diferente, pois, realmente é necessário que personagens evoluam para que o enredo seja interessante de se acompanhar? Quem viu a Nami desde os primeiros episódios de One Piece até hoje viu que ela evoluiu e muito, em todos os sentidos, e como eu disse, curto muito tudo isto, mas, também há graça fora deste eixo. A coisa que pega é que de vez em quando eu mesmo me pego vendo filmes/animes/séries que inicialmente eu não me sentia apegado, mas quando eu dei chances me surpreendi, como CSI: Investigação Criminal, quem se lembra? É uma série muito bem bolada, que usa a ciência correta da investigação criminal, que especialistas da área de investigação falam da qualidade deste aspecto, mas não era bem do meu gosto, mas fui dar uma chance e hoje pra mim é uma das melhores séries televisivas já feitas, está no meu top 3, e ele semelhantemente a Lucky Star tem esta coisa de não ter uma estória com um começo, meio e fim, mas apresentam os personagens, mostram os casos a serem investigados, a trama é desenvolvida, e o final é estabelecido, seja no mesmo episódio ou em outro, com a diferença que em CSI os personagens envelhecem e que acaba impactando na trama, até por ser filmado. Às vezes é simplesmente bom e agradável acompanhar os personagens e suas dinâmicas envolvendo suas personalidades, aspectos físicos, aspirações e tudo mais, além de ser mais leve de se acompanhar a coisa como um todo. Se qualquer pessoa quiser acompanhar a One Piece eleanão vai dar conta, nem somente pelos 1000 episódios em mais de 20 e tralalá de anos em que ele está em transmissão, quase como a igreja Sagrada Família de Barcelona que está a 100 anos em construção e não termina, e sim mais pela questão de que para compreender e absorver ao máximo a narrativa, esta pessoa não vai poder começar a ver a partir da 5ª temporada, e sim lá do comecinho, e pra tudo isso acontecer é necessário um apego e desejo pela obra em si que acaba demandando muita força de vontade e muito tempo pra ver tantos episódios. Em Lucky Star? Não, aqui você pode começar a ver a partir de qualquer um dos 24 episódios, até porquê um não influencia diretamente o outro, e a pessoa pode ir vendo à vontade sem maiores preocupações. E é o que eu resumiria a esta obra, simples e direta na comunicação, personagens e situações à vista fáceis de compreender, simplesmente bom como uma pausa para o café no meio do trabalho. Mas é só isto? Bom, não, isto foi apenas a definição de colocação do que é Lucky Star, mas o que esta obra tem de fato e o quê a compõe? Bem, vamos começar do começo.

O miolo da coisa toda

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

É uma análise diferente mesmo pra mim, pois normalmente eu começaria a apresentar os personagens em ações para demonstrar o que o enredo é e quem são os personagens em si, mas Lucky Star não tem um enredo convencional como mencionado por seu estilo de estrutura diferente do habitual que vemos por aí, está mais para um plano de fundo onde tudo ocorre em sequência. A coisa toda gira entorno de quatro personagens; Konata Izumi, as irmãs gêmeas, Tsukasa e Kagami Hiiragi e a Myuki Takara. A Konata é a pivô de tudo, a cola que une todas as outras na obra, ela é uma minúscula otaku, com uma preguiça descomunal, contrabalanceada com uma animação por animes, jogos e mangás, as gêmeas bi vitelinas sempre estão juntas, mas conseguem ser diferentes até mesmo além das aparências, a Tsukasa é sempre bem leve e simpática, mas consegue ser tão tapada quanto a Konata, além de ser absurdamente bagunçada nos estudos, enquanto sua irmã é o completo oposto, a Kagami é a figuração do que é ser uma tsundere, ela é a mais rígida do quarteto, tem um charme físico bem delicado, é inteligente e dedicada aos estudos e se importa com o futuro, e temos por último mas não menos importante, a Myuki, o exemplo máximo do que é a mulher do gênero Moe, generosa com todos e muito dedicada, sempre gentil e educada, com uma beleza a ser destacada entre todas elas, mas consegue ser distraída de uma maneira colossal, aliada a um uso de óculos por não enxergar bem, une um ao outro e o resultado é hilário. As quatro são amigas e tem por base central de todo o acontecimento o típico cenário escolar, onde conhecemos a Nanako Kuroi, uma professora que consegue ser a mistura perfeita entre a Konata com seu lado otaku e a Kagami com sua dedicação e inteligência. Os outros cenários que ocorre a trama são as casas delas, onde conhecemos suas respectivas famílias e conhecemos melhor como todas operam, como eu disse, está mais para um plano de fundo (background) do que um enredo de fato, bem direto e simples.

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

Para explicar como elas operam na estória em si, deixe-me exemplificar com o primeiro episódio; durante incríveis 6 minutos, Konata, Tsukasa e Myuki estão tendo uma conversa saborosa e de alto nível intelectual sobre como se come um cone recheado (ou seja lá como se chama em sua cidade), ‘‘se come pela cabeça ou por baixo? Mas qual é a cabeça, a parte com o recheio ou a ponta?’’ Seguida de outro debate de alto nível sobre como se degusta a outras iguarias japonesas. Logo após isso, Konata e Myuki visitam a uma gripada Kagami, uma num dia e a outra no dia seguinte, a Konata ao invés de ser salutar à sua amiga, pega o caderno pra copiar o dever de casa, enquanto a Myuki deu flores e frutas como maneira de se importar, até entrar a outra gêmea para entrar numa outra conversa de muito nível sobre cochilos e pijamas. No que se segue, a Myuki sendo muito inteligente e muito suscita sempre responde aos questionamentos que as outras três sempre aparecem, pra finalizar o episódio agora com a presença da Kagami, ela entra no papo pra saber qual é a parte do cone de chocolate que se começa a comer. Em belo resumo, este é um Slice of Life em toda a sua plenitude. Pode parecer algo frívolo e meio que whatever para desejar ver esta obra, mas na verdade é o que me encantou nela como um todo, e como isto te atraiu, Josué? Simples, quantos de nós não estivemos num mesmo contexto com nossos amigos ou colegas de escola? Me lembro de cada conversa louca e sem pé nem cabeça que tive em momentos de aulas vagas ou no recreio do mesmo naipe que esta que acabei de mostrar, algumas inclusive sobre animes, mangás, filmes, games e por aí vai. O que acaba gerando a mim um interesse por este gênero.

Eu estou ridiculamente longe de ser um fã de slice of lifes, acho muito enjoativos e repetidos em si, muito mais do que certos shonens, porém, aqui a coisa foi diferente. Veja, sabendo que slice of life significa um pedaço da vida, é óbvio que elementos do cotidiano estarão presentes na obra deste gênero, mas os japoneses em si mesmo tem uma cultura que é tão única mesmo na Ásia que acaba não atraindo tantas pessoas assim, mas eu pude me identificar com esta obra e me conectar com ela de maneira direta, pois, ao invés de serem mais do habitual ao que o japonês tem por estórias, Lucky Star transmite mais uma sensação dos personagens e situações do que propriamente tentar te conquistar por um enredo todo bolado entorno de um objeto/objetivo. Eu gosto desta pegada mais pé no chão e mais aproximada do cotidiano de fato, já que ela passa uma sensação de ser mais natural e por isso mais tranquila de acompanhar. Pois, quantas vezes não estávamos acompanhando a uma obra e de repente um personagem que temos apego de repente morre? Muitos vão largar na hora mesmo, ou se a obra tomou um rumo que não curtimos? O ponto fraco de obras que acabam evoluindo é que as vezes o ritmo não seja tão bom, mas também ela acaba ganhando camadas nas quais não vão agradar a muitos, por conta da evolução da estória. Um exemplo clássico foi Naruto, todos gostavam do Naruto quando mais jovem, ele era o maluco elétrico cheio de vontade e sem cabeça, mas quando ele se torna adulto e Hokage, as responsabilidades dele mudaram e muitos deixaram de curtir a obra de seu filho, Boruto. Outros não gostam de obras que enrolam para um caramba para se desenvolverem e alcançarem o final e acabam tendo uma preguiça pra seguir acompanhando. Aqui temos um bom exemplo de uma obra que é constante na entrega de seu conteúdo, onde os personagens são colocados em situações do cotidiano de uma maneira mais natural e orgânica.

Desenvoltura plena da obra.

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

Naturalidade é a palavra que uso pra descrever o desenrolar disto tudo, como eu disse no começo, com o formato de minihistórias que foi formulado, ele se destaca dentre outros, porém ao custo de certas dinâmicas normalmente vistas por nós, e uma delas é o desenvolvimento disto tudo, e o que mantém tudo isto junto é a questão da naturalidade. Se a conversa sobre o cone de chocolate já não fora um exemplo da dinâmica proposta, que é a de apresentar um contexto mais leve e pé no chão de estudantes, a sequência proposta casa bem com o contexto dele. Se eu perguntar a vocês certos pontos chave do que se constituiu um anime japonês é quase certo que as seguintes pontuações apareçam; episódio da praia/banhos termais, evento cultural escolar, excursão, certo? Tem isto em Lucky Star? SIM, e o que o torna diferente? A palavra-chave, naturalidade. Quando eu vejo estes exemplos em algum anime sempre, ou quase sempre, eles estão ali espaçados e sem algo de fato que os dê nexo a não ser preencher tempo de tela de um episódio, são poucos os que lembram de dar sentido para estes momentos o que faz os outros serem tão genéricos quanto um papel higiênico. Os personagens dão um tom de ‘sitcon’ bem casado com os acontecimentos que são apresentados entre os personagens da obra que acaba por te inserir no contexto da ação.

Basicamente em si, a obra acaba sendo um rolê entre amigas que se entrosam cada um ao seu modo, que vão falando de coisas da vida, cada uma tendo seu espaço à tela de maneira bem proporcional que te faz pensar que todas estão a toda hora na tela sendo elas mesmas. Não tenho como não fazer um paralelo com aquela conversa de boteco ou de resenha que temos com os amigos hora ou outra no dia-dia, pois isso incrivelmente acaba sendo um grande atrativo da obra para com o fã, fazer um conteúdo com algo diário e torná-lo interessante ao nossos olhos, pois quando lemos um livro ou vemos um filme/série/anime estamos querendo nos entreter com aquilo que não se aplica ao mundo real, se eu fosse fazer uma série sobre minha visão do mundo escolar seria quase que um milagre que eu não me tornara um psicopata, como a maioria das pessoas que tiveram uma vida infernal dentro da sala de aula, só fui ter um alívio durante o ensino médio, única época de lembranças decentes e racionais, então ver um destes poucos momentos que me fez bem em toda minha vida escolar realmente me despertou um interesse instantâneo.

Kyoto Animation/Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

Durante os episódios vemos também a desenvoltura dos personagens em suas falas, as referências a animes da época são variados, mas também detalhes do Japão como a ‘Golden Hour’, uma faixa de horário nobre do Japão com as transmissões mais aguardadas, fora as autorreferências que o estúdio de animação que Lucky Star fora feito, a grande Kyoto Animation, faz durante os episódios, como outro grande anime da época (Suzumiya Haruhi no Yūutsu – A Melancolia de Haruhi Suzumiya), no qual a mesma dubladora da Konata também faz a personagem principal que leva o nome do anime, e que em um episódio ela faz uma dança numa lanchonete cosplay fazendo a abertura de Haruhi Suzumiya (imagem à cima). Não é somente situações de conversa ao vento, a obra também é uma ode a outras de sua época ou anteriores, que cria um ambiente interessante para a animação. Finalmente há um sentido para o passeio à praia, a mudança de estação no Japão com o festival Bon Odori, a excursão escolar, o festival cultural escolar, pois neles as personagens podem cada vez mais demonstrarem sua persona e que geram momentos que se é capaz de relembrar do anime. Você lembra da cena da Myuki esquecer o leite no micro-ondas várias vezes e gerar uma cena comprovando que ela é muito Moe, a Tsukasa alimentando os cervos e sendo cercada por eles, a Konata jogando RPG até a madrugada e tomando bronca da professora no chat do jogo, a Kagami sendo chamada por um bilhete imaginando que algum garoto iria se declarar, quando na verdade ele estava interessado no bichinho de pelúcia que ela conseguiu pegar numa máquina mas que estava envergonhado de fazer tal coisa, a cena te leva a crer que teríamos algum romance rolando, quando ela quebra a cara de maneira icônica. Até mesmo os personagens secundários tem um espaço, o pai da Konata que é um escritor de novels fica tirando fotos por aí, e você vê de onde vem a personalidade da filha, a mãe da Myuki que também mostra de onde vem a personalidade de sua filha, a numerosa família Hiiragi, com as irmãs mais velhas das gêmeas e seus pais, as primas da Konata também aparecem, fora um grupo inteiro de colegiais que acabam compondo uma das grandes marcas que relembram o anime, a abertura (mais disto à frente), a professora Nanako Kuroi (melhor personagem secundário e melhor mulher do anime na minha opinião), até o encerramento que é diferente e apresenta um mini show sobre Lucky Star com a Akira Kogami e o Minoru Shiraishi, interpretado pelo próprio Minoru.Todos os personagens tem seu espaço e sua participação na narrativa, realmente uma verdadeira sitcom que funciona.

Detalhes da obra

A animação em si é um diferencial a parte, esta obra em 720P mesmo sendo de 2007 ainda é bela aos olhos de quem vê, e ela vai além dos traços e cores bem apresentados. No primeiro episódio mesmo, ela aparece com força no que é dar movimentos e vida aos personagens, mas também às falas deles. Quando debatendo sobre como comer as iguarias, a animação coloca os respectivos alimentos sendo manuseados pelas personagens na cena (imagem abaixo), ou então, ilustra cenas com paródias de outros animes e jogos citados, te colocando dentro de contexto mesmo que você não o conheça. Na parte gráfica mesmo, os personagens apresentados não são tão distintos de animes da época, mas os traços de seu criador são relevantes e bem destacados na obra, cada personagem reflete bem suas respectivas personalidades; a Konata sendo uma otaku roxa, ela tem o cabelo todo desleixado e roupas na mesma forma, sendo bem moleca e malemolente. A Myuki tem um design mais curvilíneo e suave, seus óculos são finos e leves e a reflete bem. A Kagami é bela só que de uma forma mais aguda, com ângulos mais retos e mais delicados, e sua irmã Tsukasa reflete também sua timidez e suavidade que ela gera. Temos na obra, tomboys, lolis, irmãs mais velhas, nerds, tudo que é tipo. Num gênero onde o design de personagens é tão homogêneo e genérico, ter personagens tão diferenciadas e variadas é um colírio aos olhos.

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

A trilha sonora me surpreendeu, geralmente uma trilha sonora boa de fato não está em animes menores ou de gêneros como slice of life, ela é tão boa que baixei toda a trilha sonora da série, composta de músicas instrumentais mais leves que combinam com a obra, além de bem características do anime. Como destaque, os recomendo a música de aberta, Motteke! Sailor Fuku, M.O.E.V – Gravity, que é uma paródia inspirada em Initial D, Misoji Misaki, cantada por Akira Kogami, e com um clipe da própria dubladora dela que aparece em um dos episódios. E não há como não falar de uma das principais marcas e que atraíram os olhos de muitos, a abertura.

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

A abertura de Lucky Star com toda a certeza é uma das marcas desta obra, indiscutivelmente uma das melhores e mais reconhecidas aberturas da indústria de animes, a tornando um marco pela Kyoto Animation, reconhecida pela fluidez e qualidade de aberturas que faziam para animações. Ela mostra em 1 minuto e 30 segundos aquilo que todas as boas aberturas devem ter e consegue apresentar o anime com toda sua essência e conteúdo. O caso da abertura é curioso, pois ela não nasceu visando simplesmente destacar a essência da animação, mas nasceu oriunda de uma das cenas de um do últimos episódios, onde as quatro personagens principais escolhem como atividade para o festival cultural uma dança como cheer leaders (líderes de torcida), onde elas e mais outras personagens que aparecem ao logo da série fazem um ensaio, e disto origina a abertura como tema da obra.

Recomendo dar uma olhada na versão feita pelas dubladoras, a música é intensa, bem animada e até te faz cansar mesmo sem dançar.

Impressões gerais

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

No geral, a proposta de ser uma obra que mais refletisse situações que normalmente passamos com os amigos foi bem colocada, o modelo Yonkoma caiu bem para Lucky Star. E mesmo que toda a obra só tenha quatro personagens masculinos, (sim, somente quatro personagens masculinos aparecem em todos os 24 episódios), os pais de Konata e o das gêmeas, o Minoru Shiraishi e o garoto esquisito que queria um boneco de máquinas ao invés da Kagami, ainda pude me relacionar bem com a obra, provando que sendo seres humanos podemos nos relacionar e ter paralelos com quaisquer pessoas. Quem não teve na roda de amigos um otaku/cinéfilo como a Konata? Ou alguém muito inteligente a ponto de ofuscar a explicação dos professores e que fosse gentil e disposto como a Myuki? Alguém super responsável a um ponto de ser chato e enjoado, mas com bom coração como a Kagami? Ou alguém gentil, mas bem inocente como a Tsukasa? Mesmo sendo homem, pude instantaneamente me sentir representado por elas, e isso num geral é algo positivo a se tratar de uma produção onde mesmo que as personas sejam tão diferentes de seu meio habitual, ainda se é capaz de se sentir a história em si. Algumas obras nós somos até capazes de admirar os personagens e o contexto em que são inseridos, mas hora ou outras não nos sentimos tão inteiramente conectados com a mesma em si, e Lucky Star te deixa estranhamente ligado na estória em si, mesmo sem uma evolução ou trama mais elaborada, é uma narrativa legal de se acompanhar por conta das dinâmicas apresentadas, personas bem definidas e situações que não ficamos tão deslocados ao vê-las.

Se eu tivesse de explicar num geral o que Lucky Star é, seria uma roda de amigos onde você fala de tudo com eles, das coisas mais aleatórias possíveis e das maneiras mais absurdas porquê é simplesmente bom ter conversas assim. Assim como no nosso dia-dia, ficar falando sempre do trabalho em si, das lamúrias da vida dentre tantas outras coisas possa ser enjoativo, ter alguém pra jogar conversa fora dá simplesmente um alívio grande para nossa mente, assistir este anime enquanto assistindo a obras elaboradas com fãs falando sobre ela a todo momento em tantos detalhes, resolvendo quebras cabeças que eles geram ou descobrindo novidades sobre a obra, as vezes nos cansam de uma maneira incrível. Tudo isso consome uma força de vontade e disposição muito grande, isso quanto tudo isto citado não gera aquelas intermináveis briguinhas de Twitter/WhatsApp sobre coisas as vezes sem nenhuma relação com a narrtiva, mas que alguém muito desocupado inventa hora ou outra. Lucky Star é o anime que eu recomendaria para alguém que quer somente aproveitar o momento, o mesmo é todo leve, não tem algum personagem querido morrendo por decisão do mangaká, não tem ninguém sofrendo por um amor não correspondido, não tem embates de ideais ou de visões de mundo, é bem humorado, não é repetitivo e simplesmente você aproveita o momento que ele proporciona, não cansa ao ponto de você estar no 20° episódio sem ter percebido que já se passaram tantos episódios, não tem teorias e linhas de pensamento complexas como Neon Genesis Evangelion. Não vejo erros crônicos que todas estas dinâmicas citadas trazem consigo, não há um problema de ritmo com que os personagens e as situações são apresentados e colocados, há uma constância nas personas da obra e de suas qualidades.

Notas

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

Animação: a animação é bem feita, os traços oriundos do mangá permaneceram quase que sem alterações, sendo que numa adaptação de algo estático como ilustrações nem sempre é possível, há uma fluidez e há expressões nos personagens, acho que facilitado pela estrutura Yonkoma, já que não existem muitas ações na obra, mas quando tem, os movimentos e expressões são evidentemente bem feitos, e para um anime de 2007, ainda fica à frente de muitas animações mais novas. Se você não soubesse que é de 2007 provavelmente você nem notaria. Não há imperfeições, não há traços mal feitos ou com erros de perspectiva na imagem; 10/10

Arte gráfica: muitos confundem a animação com o design gráfico dos personagens e objetos apresentados, muito comum até. As personagens são expressivas de acordo com suas personalidades, o que é bom, mas o design não é aquele ‘diferentão’ da turma, como Kimetsu no Yaiba, One Piece, é visível com os olhões de personagens de animes da época, mas casa com a proposta da obra, mas a arte minimalista é bela, há varias localidades reais que a animação aborda, e são bem desenhadas; 8/10

Adaptação: eu li o mangá, que é igualmente simples de se acompanhar como a adaptação, e as cenas usadas na animação estão presentes em quase todos os episódios, não é comum de se ver em qualquer gênero de animes tanto conteúdo adaptado de sua fonte original, seja ela uma novel, web novel, jogos e etc. Os designs dos personagens estão praticamente inalterados, juntos com as paisagens e cenários apresentados, e maneira como os personagens são colocados não deturpa em nada a fonte original; 10/10

Personagens e enredo: as personas apresentadas aqui tem personalidade de fato, não há como as confundir pois como colocado nos pontos anteriores, cada personagem tem seu design que reflete sua respectiva personalidade, para uma obra Yonkoma a estória é boa, mas perde num contexto geral, não tem um enredo propriamente dito, a simplicidade é o forte desta obra, mas ela também rouba uns pontinhos, porém está muito longe de ser ruim, quem acompanhar somente alguns episódios já será capaz de decorar os nomes dos personagens, principalmente as quatro centrais, conhecer suas personas bem e irão se lembrar das situações apresentadas ao longo dos episódios, não é algo genérico como vários animes de sua época mas não é algo como Cowboy Bebop; 7.5/10

Trilha sonora: e repito, para um anime slice of life ele tem uma trilha sonora que se destaca facilmente, eu não baixo qualquer trilha sonora ou pesquiso na Internet para saber quais são suas músicas, e não é só uma ou outra, a trilha sonora além de casar com a obra em si, não é genérica como uma trilha qualquer de piano que colocam por aí, apesar de que também elas não são muito extensas, a não ser as que citei anteriormente, fora que a abertura de fato entra na minha lista das dez melhores aberturas que já vi; 8.5/10

Geral: é uma obra muito agradável e bem abrangente, é um destaque em seu gênero Slice of Life e bem lembrado pela comunidade que acompanha animes e mangás pelo conjunto de toda obra, personagens bem definidos, linhas de fala que condizem com cada personagem. 8.8/10.

Indicações

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

Para quem quer ter uma nova indicação de animes se estiver sem novos interesses, Lucky Star é o anime para você, repito, realmente dá um cansaço estranho de acompanhar de maneira quase que religiosa a uma certa obra, ver o que estão falando sobre ela, as dezenas de discussões que elas geram, de vez em quando com um arranca-rabo com algumas pessoas, e é nesta hora que é bom parar e partir para algo diferente e mais tranquilo. O compromisso aqui é do anime te entreter com situações tão comuns e com um andamento tranquilo da obra, sem maiores elaborações e raciocínios. Hoje eu entendo o porquê de ter caído nas graças com a comunidade que curte animes a muito tempo, realmente ele é diferenciado e bem feito, sendo minimalista, mas não displicente com os detalhes de seus personagens e situações, além das dezenas de referências a outros animes e mangás, e quem curte tudo isso poderá ver numa boa. Só sinto pena que ele não tenha vindo para o Brasil, os EUA o têm dublado e lá ele acaba sendo até mais conhecido num contexto geral do que aqui. E se você já viu, compensa sim assistir a esta obra prima, não envelheceu mau em nenhum quesito e ainda consegue ser diferente do habitual dos animes de hoje em dia. Pra quem tem mimimi contra o ecchi, ele não tem, pra quem se afasta de algo com uma cultura muito forte do Japão e não compreende os contextos dela, pode ver isso tranquilamente. Serve tanto para àqueles que estão descobrindo os animes, quanto para quem já é macaco velho como eu, é um anime que homens e mulheres, crianças e adultos podem acompanhar sem problemas. Eu diria que é uma animação a ser vista por quem realmente curte a coisa, ela é simplesmente boa e se a pessoa que vos escreve que definitivamente não é um fã de slice of lifes vos recomenda, então vale dar uma conferida!

Lucky Star
©Kyoto Animation/Lucky Star

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