
RWBY, a obra original, é como um amigo há muito tempo não visto. Na época do nosso primeiro encontro, me recordo bem de ter assistido somente os três primeiros volumes e, ao ver o começo do quarto, larguei de mão – o que foi um erro, olhando em retrospecto, já que as personagens e o universo nunca saíram da minha cabeça. Também já passei vergonha com ela, escrevi e editei um vídeo constrangedor criticando a coitada, sem estar plenamente ciente de suas qualidades e defeitos. Por isso, como um ato de justiça e redenção de minha consciência, início esta minha jornada na Anime United com uma resenha sobre sua adaptação para anime, vulgo RWBY: Hyousetsu Teikoku.
O anime, produzido pelo estúdio Shaft, teve sua estreia em 3 de julho de 2022, finalizando sua exibição em 18 de setembro do mesmo ano com 12 episódios. A história cobre partes dos eventos do primeiro volume, focando mais na introdução das personagens principais e a formação do grupo RWBY. Inclusive, me sinto bem-aventurado ao ver que fizeram diversos adendos para expandir a narrativa da série original, algo de excelente tom, porque realmente precisava. Com isso dito, vou focar em discorrer sobre minha opinião a respeito do desenrolar da trama e, no final, refletir um pouco sobre o que ela significa para mim.
Uma delícia de adaptação

Assim como na série original, a história se passa no mundo de Remnant, um universo de fantasia futurística movido por uma energia natural chamada Dust, que serve, por exemplo, para abastecer naves voadoras e criar armas de alta tecnologia. Ele é habitado por humanos e faunus, híbridos de humano-animal. No entanto, este mundo é infestado por criaturas das trevas chamadas de Grimm. Por isso, surgiram diversos caçadores – guerreiros treinados para derrotá-los – e escolas dedicadas a formar a próxima geração de defensores da humanidade. Justamente neste contexto, surge a academia Beacon, onde estudam nossas protagonistas. Sendo assim, o grupo que dá nome à obra é formado por Ruby Rose, uma garota com os olhos prateados; Weiss Schnee, uma herdeira fria e orgulhosa de cabelo branco; Blake Belladonna, uma muié-gato de olhos âmbar com um passado tenebroso e Yang Xiao Long, uma loira extrovertida, energética e sarcástica.
Além da construção de universo idêntica, a história do anime possui um recorte preciso na personagem Weiss, introduzindo os membros da sua família e dinâmica com cada um logo no primeiro episódio. Tudo isso para dar contexto para o arco original da adaptação, que cobre a maior parte da trama, o qual irei esmiuçar em detalhes mais tarde.
Prosseguindo, uma coisa que amei de imediato foi a recriação, quase idêntica, daquela cena icônica na loja de Dust com a Ruby, onde ela derrota alguns bandidos usando a Crescent Rose, sua arma, e faz uma pose muito irada. Inclusive, também me impressiona o nível de detalhamento da arma dela, o que demonstra capricho da produção. No entanto, me incomoda o fato da abertura ser um slideshow de luxo, algo totalmente decepcionante. Fora essa questão, o resto da animação é uma completa delícia.
Um pesadelo infinito

Depois dos três primeiros episódios, com o grupo principal devidamente organizado e apresentado, um Grimm de tipo especial, chamado de Nightmare, infecta os sonhos da Weiss. Por isso, o diretor da academia Beacon, o professor Ozpin, chama Shion Zaiden, um caçador especializado nesta espécie de Grimm. A partir daí, o anime começa a dar uma enrolada sinistra na história, isto é, toda a progressão da trama se torna bem espaçada e admito ter perdido parte do ânimo. Não é como se todo o resto ficasse ruim por causa disto, mas ver as personagens falhando várias vezes seguidas na tentativa de salvar sua amiga é, para todos os fins, frustrante.
Falando em sonhos, todos eles giram em torno dos traumas da Weiss, desde sua família tóxica até seu preconceito herdado contra os faunus. Tudo isso resulta numa mente que não consegue decidir exatamente o que pensar, sendo levada quase inteiramente pelas altas expectativas impostas a ela. Além dessa pressão, as figuras do pai e da mãe são bastante problemáticas. Por um lado, o pai é tão autoritário que chamá-lo assim é um eufemismo. Por outro, a mãe é uma ausência constante, afogada na embriaguez. Seu irmão mais novo, um pirralho insuportável, está sempre procurando uma falha para acusá-la. A irmã mais velha dá todo o suporte quando está presente, porém mantém as cobranças por bons resultados, para que o nome da família não seja desonrado. Por fim, ela ainda tem o racismo estrutural vindo de fábrica.
Dando seguimento, todos esses fatores são explorados pelo Nightmare, transformando-a, dentro do pesadelo, na Negative Weiss, uma pessoa tomada pelos sentimentos negativos. Por isso, mesmo com suas amigas tentando convencê-la a acordar, ela demonstra grande resistência. Aliás, existem dois lugares, digamos que curiosos, dentro de sua mente: a jaula dos “bobos” e a “mansão dos faunus”. O primeiro é onde a nossa menina herdeira reprime seu lado lúdico, a criança interior que só quer brincar. O segundo abriga as memórias mais difíceis, relacionadas ao seu trauma contra os faunus, das quais ela deseja nunca mais lembrar, mantendo-as no lugar mais distante do seu mundo imaginado.
No fim desse arco narrativo, a tensão começa a subir e as nossas personagens alcançam, de uma vez por todas, a criatura que está causando todo esse pesadelo sem fim. Nessa empreitada, Ruby fica responsável por desferir o golpe final, mas o Grimm consegue se defender no último instante, e ela está prestes a ser morta. Então, como que inconscientemente, o poder dos seus olhos prateados dá um vislumbre de sua força: um forte clarão de luz derrota o ser terrível, sem que nossa menina mantenha alguma memória desse ocorrido. Assim, Weiss consegue despertar e se reencontrar pessoalmente com suas amigas.
Um coração sincero

Em conclusão, admito ter ficado muito tempo matutando as ideias e pensando sobre como daria prosseguimento ao meu texto. Talvez, assim como o sonho da Weiss, possa ter ficado concentrado demais nos problemas da vida, porque, como vovó já dizia, não há quem viva sem dificuldade. Por isso, esforço-me, neste instante, para não reduzir este “até logo” a um resumo fajuto de quinta categoria, mas forjá-lo no fogo daquilo que não pode ser contabilizado. Deste modo, assumo que uma boa adaptação de uma obra maravilhosamente imperfeita, torna-se a porta de entrada necessária para um público paciente e amoroso, tal como este que vos fala.
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