Por trás daquela grande obra… Na ponta de um lápis que a magia começa e a história cria vida, mas o que tem por trás desses contornos?

Bolinhodearroz
Profissão mangaká
©Horikoshi Kohei / Boku no Hero Academia

Já parou para se perguntar como é a vida e a rotina daquele seu autor favorito que você cobra tanto por um novo capítulo? Algum dia já se perguntou como tudo acontece? Pois aqui vamos explicar um pouco dessa profissão chamada mangaká para tirar algumas dúvidas que existem e mostrar as dificuldades e os desafios que eles enfrentam.

Profissão mangaká
©Masashi Kishimoto

Mantenha sempre vivas as chamas de um sonho

Atualmente existem milhares de mangakás no Japão, porque essa profissão lá pipoca por todo o lado e os jovens crescem almejando ter suas histórias publicadas em grandes revistas, como a Shonen Jump. Porém essa vida é mais complicada do que imaginamos e, para aqueles que trabalham com prazos semanais ou mensais, é preciso estipular um ritmo diário bastante intenso que lhes dispõe pouco tempo para descanso ou para alimentação.

É comum que um mangaká inicie seus trabalhos lançando um pequeno One Shot, algo como um piloto, para “testar” a recepção pública, então ele parte para uma serialização semanal caso o retorno seja positivo. Essa é uma área extremamente competitiva e exige muito de cada profissional envolvido.

Após o “ritual de entrada” e com o sucesso garantido, vem o trabalho em equipe, porque são necessárias outras pessoas para dar conta de toda a carga e entregar um conteúdo de qualidade. Existe a necessidade principal e básica de um editor que seja a ponte entre o mangaká e a revista e de um roteirista para desenvolver os enredos, mas a depender do crescimento da obra (tem que fazer MUITO sucesso), pode-se até ter uma equipe completa.

Um mangaká inicia sozinho, mas a partir do momento que consegue um contrato bom, ele pode adquirir uma equipe e alguns assistentes para conseguir dar conta de todo o trabalho exigido. Inclusive, começar como assistente de um mangaká abre muitas portas nesse meio, como Eiichiro Oda que era um assistente de Nobuhiro Watsuki (criador de Samurai X) e agora está entre os nomes mais famosos dos mangás.

Outro ponto também é que nem todos usam apenas papel, lápis e borracha para desenvolver suas obras, alguns possuem todo o tipo de tecnologia para desenho: computadores, tablets, softwares modernos, entre outros. Então a jornada de trabalho acaba dando um pouco mais de alívio com a praticidade das máquinas e uma equipe para auxiliar.

Profissão mangaká
©Shueisha Manga Office

Até o limite…

A real é que, dificilmente mangakás possuem uma “vida social adequada”, visto que seu tempo é praticamente todo dedicado ao trabalho. Aqueles que vivem dessa profissão abandonam praticamente tudo para viver desse sonho que é uma rotina de sacrifícios e muita pressão.

No Japão existe a chamada “Golden Week” que acontece entre os meses de abril e maio onde se encontram 4 feriados seguidos que resulta em uma semana de bom descanso para aqueles que trabalham sem parar apenas para lançar nossas histórias. Mas ainda é um tempo reduzido para que se descanse de um trabalho tão exaustivo e que não é sempre garantido por muito tempo.

Nesse sentido, o feedback dos leitores é essencial para que uma editora tome a decisão se permanece com aquela publicação por mais tempo ou se cancela a história – Togashi é uma grande e importante exceção e já explicaremos o porquê -.

Yoshihiro Togashi sofre de problemas na lombar e isso é a principal causa desse atraso enorme nos capítulos de Hunter x Hunter (HxH). Por ser uma das grandes figuras da Shonen Jump, desde Yu Yu Hakusho, o autor acabou sofrendo ainda mais pressão para que produzisse mais, até que surgiu HxH, uma obra pensada minuciosamente por Togashi para que seja uma história aclamada e não terminasse na decepção que Yu Yu Hakusho trouxe em seu final. HxH é o tesouro de Togashi e, talvez por isso (e também por algum perfeccionismo), ele não deixe nas mãos de outras pessoas para que continue por ele e decida desenhar e montar cada capítulo sozinho.

O nível de seus problemas estava a um ponto de que ele sentia dor para realizar qualquer tarefa, até mesmo se levantar ou sentar, o que o mantinha preso numa cama grande parte do tempo. Essas dores persistem por anos e a própria editora está ciente dessa situação e da dimensão real dos problemas de Togashi, por isso são tão coniventes com os hiatos e aceitam que ele tenha seu próprio tempo. E sim, essas dores físicas são bastante comuns nessa profissão, sobretudo pela jornada exaustiva e a forma de vida que muitos autores e assistentes levam.

Profissão mangaká
©Eiichiro Oda

Alguns grandes nomes que conhecemos (Eiichiro Oda, por exemplo), mesmo já possuindo uma fama mundial, não fazem questão de abrir mão de suas criações para algumas horas a mais de descanso e eles continuam em uma rotina exaustiva de 16 ou 20 horas por dia em suas produções.

Vamos levar em consideração que uma história que é semanal, por exemplo, pode durar até anos em publicação a depender de sua popularização, como: One Piece (há 23 anos), Hunter x Hunter (há 22 anos), Choujin Locke / Locke the Superman (há 53 anos) e até JoJo’s Bizarre que está em publicação há 33 anos. Agora, imagine-se, portanto, passar todos esses anos ainda publicando uma história com uma média de 26 a 33 páginas por semana – que foram feitas e refeitas até acertar – sem perder a qualidade e não acabar sendo bombardeado por críticas de seus leitores.

No entanto, autores como Akira Toriyama e Masashi Kishimoto, além de ganharem muito com os direitos de suas obras, faturam também por cima do anime e de todas as propagandas que o envolvem, decidindo deixar suas equipes mais à frente dos mangás e, assim, manter uma vida social mais ativa e ganhar mais descanso.

Podemos até citar a recente notícia [https://www.animeunited.com.br/noticias/mangas/o-criador-de-naruto-masashi-kishimoto/] de que Kishimoto passará a assumir os próximos capítulos de Boruto que estava apenas em sua supervisão, já que era escrito por Ukyo Kodachi e ilustrado por Mikio Ikemoto, deixando alguns fãs nervosos por conta de sua péssima fama de “mexer demais” com alguns elementos da história. Aparentemente ter deixado o destino de seus personagens nas mãos da equipe principal foi o que desenvolveu a fama de Boruto e a predileção dos fãs pela obra atual que prossegue com a história de Naruto, sua família e seus amigos.

Acontece que essa realidade não é a da grande maioria dos mangakás, em que muitos, infelizmente, até desistem de continuar suas obras devido a toda essa carga, assim cada capítulo finalmente lançado significa uma vitória e um grande alívio, sobretudo com a queda das edições impressas que torna um desafio ainda maior continuar conquistando leitores e os fãs por bastante tempo.

Os autores de maior sucesso ganham mais dinheiro e podem contratar muito mais assistentes, obviamente, por que suas obras se tornam grandes franquias multimídias e garantem muito sucesso, mas aqueles menores ainda possuem uma maior carga para si e precisam se desdobrar em layouts, pinturas, desenhos, etc.

Grande parte dos mangakás ainda ficam presos aos tankoubons (chamadas de graphic novel) por uma insignificante quantia que recebem das revistas e que é suficiente apenas para que sobrevivam – sem mencionar valores aqui -, porém eles escolhem essa profissão por puro amor e, literalmente, vivem pelas suas criações, mesmo com o cansaço e a falta de tempo para seguir um ritmo adequado de vida.

Profissão mangaká
©Monkey Punch

Então, é basicamente assim que um mangaká vive no Japão. Não existe um “tempo livre” para que possam aproveitar um pouco a vida ou tentar socializar e distrair da grande pressão e da dura jornada no trabalho, os poucos que conseguem são aquela pequena parcela de autores que alcançaram um enorme sucesso e podem dispor de uma equipe completa para isso, mas ainda é uma minoria. Mesmo assim todos eles continuam dedicando cada momento de suas vidas (nem sempre ganhando bem, porque se não for serializado, não terá renda) para nos dar essas páginas das obras que mais amamos acompanhar, portanto é fundamental darmos valor e entender que todos eles também são humanos.

O que acharam desse breve resumo informativo da vida de um mangaká? Já sabiam como era ou não? Deixem aqui seus comentários sobre o que pensam da profissão e desse trabalho exaustivo que é desenvolver uma história.

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