Especial Fim de Ano: Entrevista com o Dublador Fábio Lucindo Para finalizar o ano bem, nosso Blog traz com muita satisfação um papo com o mestre Fábio.

Vitor Nascimento
(Podcaster)
@ifusic
©Fábio Lucindo/The Pokémon Company/Akira Toriyama/Tite Kubo

Queria desejar a todos um feliz ano novo! Para comemorar e fechar nossos especiais, hoje, o papo é com o detentor de uma das vozes mais conhecidas da dublagem brasileira. Estou falando do mestre Lucindo! Fábio Lucindo está no ramo há muito tempo. E trouxe a nós alguns dos seus pontos de vista sobre a dublagem em geral. Para quem não o conhece, ele dublou aqui no Brasil o Ash de Pokémon por quase vinte anos. Além dele, também fez o Ichigo de Bleach, Kuririn de Dragon Ball, Kiba de Naruto, entre vários outros. Sem mais enrolação, vamos ao papo!

Entrevista 

Antes de qualquer coisa, gostaria de agradecer a gigantesca atenciosidade do Fábio. Nos atendeu por e-mail, foi muito educado e além disso, disponibilizou do seu tempo para nos responder. Fica aqui um agradecimento especial em nome de toda a equipe da Anime United.

Anime United – Não adianta falar sobre quaisquer personagens sem antes conhecer um pouco de sua trajetória pessoal. Como começou sua carreira de dublador? E quais personagens de animes e/ou desenhos você mais gostou de fazer? 


Fábio 
– Comecei a trabalhar com dublagem em função de outros trabalhos com teatro e publicidade que já realizava anteriormente. Uma coisa levou à outra. Fui indicado por Cândida Fraga, para ir até a Álamo. Fui, fiz um estágio, um teste e nunca mais parei! Gostei muito de ter feito o Ash, claro. Sou maluco pelo Kuririn. Também gosto do Ichigo de Bleach e do Dr. Frogg da Liga dos Supermalvados.

Anime United – Você costuma ter algum tipo de ritual antes de entrar em ação? 

Fábio – Não. Mas gosto de chegar bem antes do horário para encontrar as pessoas e não atrasar ninguém.

Anime United – O Ash talvez seja seu marco, entretanto, você interpretou outros de destaque como o Ichigo de Bleach. Como foi o processo para dublar ele, por exemplo? Você identifica alguma característica dele em você? 

Fábio – Ichigo é um personagem maravilhoso! É um garoto, mas também é um herói. Gosto de lidar com estes extremos. Acho que a principal mudança é quando ele se torna o “Ichigo Black” (Ichigo Mugetsu). Me identifico com isso. Existe um “Fábio Black”. Talvez todo mundo tenha sua “versão black”… é bom poder extravasar isso no trabalho.

Anime United – Alguns dubladores dizem que dublar animação, seja ela de qualquer tipo, é mais complicado de acertar o tempo da fala. Realmente é mais difícil do que dublar conteúdos com pessoas reais mesmo? Ou você tem outro ponto de vista sobre o assunto?


Fábio – Tenho outro ponto de vista. Depende da produção. Pokémon é uma animação muito “fácil” de dublar, por exemplo. Já alguns personagens de filmes podem ser muito difíceis de fazer. Acho que não há regra. Cada caso é muito particular e generalizações não ajudam nesse aspecto.

Anime United – O Kuririn também é bem conhecido pelo público. E a postura dele meio que mudou agora em Dragon Ball Super, virou um cara mais “família”, desinteressado nos combates. Para você que está ali interpretando, essa mudança de personalidade influenciou na hora de impor a voz? Foi um processo de renovação para você também?! 

Fábio – No caso do timbre não. Já faz um bom tempo que fiz certa mudança na voz do Kuririn e passei a usar a minha normal mesmo desde Dragon Ball GT. Para à atuação muda sim. Confesso até que ficou mais confortável para mim! Gosto do humor dele e dessa fase “família”. Estou ficando velho e também um pouco desinteressado por combates. Mas é bom treinar sempre!

Anime United – Fábio, no Japão, a profissão de dublador é a mais cobiçada. Tanto que lá, os “Seiyuu” que dublam os personagens de animes, são os mais bem remunerados durante o ano nesse meio da animação. A dublagem no Brasil vem, a cada ano, sendo mais reconhecida. Do seu ponto de vista, acha que em algum momento chegaremos a uma situação próxima a do Japão?!

Fábio – Não sei se ao mesmo nível do Japão. Mas já identifico uma mudança abissal sobre a forma como os dubladores são vistos ultimamente no Brasil. Acho que este movimento começou com a explosão otaku e vem se intensificando diariamente com a internet. Não compartilho muito desses novos valores, dessa exposição, mas entendo quem goste e precise disso.

Anime United – Fábio, o trabalho de dublador é meio imprevisível. Às vezes você está em casa e do nada alguém te liga marcando um teste. Essa imprevisibilidade de ligarem do nada já te colocou em situações inusitadas por causa de um teste? Por exemplo, você sair correndo, desmarcar compromissos… coisas desse tipo?!

Fábio – Sim. Durante muito tempo, minha vida pessoal esteve em segundo plano e eu deixei de fazer muitas coisas em função da dublagem. Hoje, isso mudou! Até porque ficou mais fácil enviar testes e regravações de maneira remota, então é possível realizar um teste praticamente de qualquer lugar. Já tive que gravar de madrugada ou aos finais de semana em função de problemas da pós-produção. Porém, foram casos muito pontuais.

Anime United – Você costuma frequentar eventos? Como é seu relacionamento com os fãs?!

Fábio – Quando sou convidado, sim. Acho que tenho um bom relacionamento com os fãs. Não sofro com isso. Gosto de ouvir o que eles têm a dizer. Não me incomodo em tirar fotos, mas prefiro conversar.

Anime United – Em poucas palavras, o que a dublagem representa para você como pessoa?! 

Fábio – Difícil colocar em poucas palavras. É praticamente minha biografia. Me reconheço como individuo através do meu trabalho também, acho que é um pouco assim com todo mundo. Comecei a dublar com doze anos. Estou com trinta e três. Vivi mais tempo dublando que tudo. Tanto as coisas que tenho, quanto as coisas que sou, são profundamente ligadas à dublagem e sou muito grato a isso.

Anime United – Ali nos bastidores dos estúdios, acontece muita brincadeira? É algo mais sério o tempo todo? Ou tem aquele momento para tudo?!


Fábio – Tem momento para tudo. Eu gosto muito das pessoas com as quais trabalho e me divirto bastante nos intervalos das gravações. Muitos são meus amigos pessoais de longa data. Mas sabemos separar. Na hora de trabalhar, tudo deve ser mais sério, sendo justamente assim que fazemos. Funciona!

Anime United – Você vê o anime de Pokémon como um bom desenvolvedor de valores sociais?

Fábio – Depende do aspecto abordado. Se formos falar particularmente do Ash, da forma como ele se relaciona com seus amigos e, principalmente, com suas derrotas, sim, sem dúvidas. Agora, se abordarmos a franquia em geral, sobre consumo e comportamento humano… acho que não. Fiquei um pouco assustado com o que Pokémon GO fez com algumas pessoas durante o ano passado, por exemplo.

Então galera, esse foi o nosso papo com o Fábio. Uma voz de experiência no meio da dublagem. Pudemos ver seu ponto de vista em relação a alguns assuntos técnicos e, principalmente, sobre personagens. Gostaram? Digam ai nos comentários… vocês também têm um lado Black? Querem mais entrevistas com dubladores? Enfim, um abraço a todos.

Perguntas por – Breno Santos 
Agradecimentos Especiais para – Fábio Lucindo
Revisão final por – Márcio Vinicius

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