O falecimento de Kentaro Miura e o que precisamos refletir Porque os hiatos que tanto reclamamos precisam ser mais tolerados

Bolinhodearroz
Kentaro Miura
©Kentaro Miura

Recentemente tivemos uma grande perda no mundo dos mangás, Kentaro Miura nos deixou com apenas 54 anos e isso foi o grande ápice para que possamos refletir muita coisa da vida dos mangakás. Durante sua vida, Miura nos agraciou com obras como: Japan, Futatabi, Miuranger (sua primeira criação, em 1976), The King of Wolves, Duranki (sua mais recente criação, de 2019-2021), Gigantomachia e o mais famoso de todos, Berserk.

Apesar de já publicar na revista Young Animal antes da sua obra mais famosa, Berserk foi a história que abriu as portas do sucesso para Miura, com uma história repleta de ilustrações e narrativas violentas, além de personagens completamente complexos, o mangá inspirado na Europa Medieval gira em torno de Guts, o espadachim negro, em sua jornada por Midland, um mundo de fantasia onde fadas e demônios são criaturas reais.

Após conhecer o Bando do Falcão sob o comando de Griffith, tudo muda na vida de Guts que presencia horríveis acontecimentos e passa a ser perseguido por demônios desde o momento em que é marcado com um estigma em seu corpo e alma. Tudo logo passa a se voltar nessa jornada de Guts que está buscando por vingança e vive em uma constante dualidade consigo mesmo.

Assim seguem os acontecimentos de Berserk que, recentemente, completou 30 anos de publicação e ainda não havia chegado ao seu final, consequentemente, com a morte de seu autor, muitos começaram a se preocupar apenas com o destino dessa história e isso abriu inúmeras discussões pela internet sobre a importância da vida de um mangaká.

Berserk
©Kentaro Miura / Berserk

Enquanto se debatia sobre a continuação da obra de Miura, nomes foram citados, como Yoshihiro Togashi, o famoso autor de Hunter x Hunter que está sempre nas notícias pelos inúmeros hiatos em sua obra que é muito aguardada pelos fãs, mas muitas pessoas, com seu constante e irreversível egoísmo, deixam de enxergar o que realmente está acontecendo no mundo dos mangás e só sabem questionar e cobrar as continuações de suas obras favoritas, como se os autores fossem apenas máquinas de produção.

Não paramos para refletir sobre a dura vida dos mangakás e a morte de Kentaro Miura veio para estampar o contraste entre a pressão do público e a precária situação que os autores que gostamos tanto vivem. Já fizemos uma matéria aqui em homenagem aos mangakás, mas o que não vemos é quantos sacrifícios eles fazem para que tenhamos, semanalmente (ou no período de tempo que for) o aguardado capítulo das histórias que gostamos tanto.

Miura se foi ainda novo e por uma fatalidade resultante de sua vida sem nenhum descanso, sem socialização com outras pessoas, sem poder cuidar direito de suas doenças e sem conseguir cuidar da própria vida como um ser humano comum. Mesmo assim ele passou quase sua vida inteira nos dando obras como Berserk e, após sua partida, os seus “fãs” só souberam questionar “e agora o que será do final de Berserk?”.

Berserk
©Kentaro Miura / Berserk

Assim também acontece com Togashi que também possui muitas complicações de saúde (tão graves que ele já relatou não conseguir nem levantar da cama por muitos dias, por conta da dor), mas muitos daqueles que dizem admirá-lo nunca param para ler seus desabafos e entrevistas, só querem o final de Hunter x Hunter, questionam os hiatos enormes, fazem memes e só pensam que a obra nunca acabará se ele morrer (nem precisa-se comparar com A Guerra dos Tronos de G.R.R Martin).

Precisamos entender que a vida de um mangaká vai muito além do que sua obra, muitos deles não possuem férias, nem tratamento adequado, muito menos conseguem dormir ou comer direito, por conta dessa extrema pressão do público e das editoras que precisam seguir prazos. Isso é extremamente agravante, sobretudo quando paramos para refletir sobre muitos “pedidos de socorro” que são deixados em páginas de seus mangás de maneira randômica, como esse compilado cronológico feito por um fã italiano do Miura de alguns de seus relatos publicados durante suas serializações na Young Animal:

Imagens da internet
©Imagens da internet

Será que agora, com essa perda tão terrível, podemos finalmente criar algum tipo de empatia e entender como é difícil a jornada de um autor apenas para conseguir publicar cada página do mangá que aguardamos ansiosos? O que é preciso ainda ser sacrificado para que essa indústria dos mangás (e não se enganem, porque a dos animes é igual) comece a tratar seus autores como seres humanos com necessidades?

Achamos que autores como Miura, Togashi e Oda ganham muito dinheiro por serem tão aclamados por suas histórias, mas a realidade é que ninguém seguiria essa vida se fosse para ser pouco recompensado (porque eles não recebem tanto quanto muitos imaginam) e ainda não conseguir viver para gastar seu próprio dinheiro.

É muito fácil, nós na posição de consumidores, apenas cobrar e esperar que tudo chegue em nossas mãos no prazo correto e sempre que um artista morre (ou mesmo só adoece, ou some) nos preocuparmos somente se um dia teremos a obra finalizada. É verdade que muitos mangakás trabalham com assistentes, mas suas equipes não fazem todo o trabalho, eles só ficam responsáveis por áreas pequenas como cenário, sombras, movimentos, etc. Ainda é o mangaká que faz grande parte do trabalho (com exceção de alguns como o Kishimoto que entregou Boruto a uma equipe exclusiva e apenas bem depois tomou a frente).

E quanto maior a série, maior é a cobrança. Por isso é muito comum vermos em alguns webtoons ou até mesmo nos mangás, avisos de que as produções tiveram que fazer uma pausa por conta de saúde, então isso é como eles são tão sobrecarregados e, ainda assim, as pessoas nunca foram tolerantes com hiatos. Esperemos que sejam um pouco a partir de agora.

Kentaro Miura
©Kentaro Miura / Berserk

Ser um mangaká, para muitos, é ter que levar uma vida solitária, comendo mal, dormindo pouco e ainda conviver com inúmeros problemas de ansiedade, além de doenças resultantes de levar essa vida péssima. Eles são tão solitários que o mínimo de contato humano que podem ter é, por exemplo, com o editor e em um ritmo mensal, mesmo com assistentes pessoais, eles não conseguem interagir tanto.

A indústria dos mangás, sobretudo atualmente com tantas obras sendo lançadas, é muito competitiva e volátil, onde trabalhos podem ser cancelados sem nenhum aviso prévio. Ainda assim, podemos compreender que todos amam produzir e aguardar por um retorno positivo de seus fãs, seja pelas redes sociais ou por cartas, mas a melhor forma de apoiarmos nossos artistas favoritos e entendermos o que passam é comprando suas obras, recomendando, comentando e dando apoio para que consigam seguir em frente do que se orgulham apesar dos sacrifícios, não cobrando incessantemente uma resposta se eles atrasam ou esperando uma continuação de suas obras após suas mortes ou doenças graves.

Para estarem onde estão, esses artistas abriram mão de muita coisa, inclusive de uma vida saudável, muito por ser esse o seu sonho e, apesar de todo o esgotamento e da competitividade, eles continuam fazendo esses sacrifícios.

Então, para finalizar, o que devemos levar de reflexão em toda essa situação é que os autores que tanto admiramos merecem ser mais valorizados como seres humanos, tanto pelos seus fãs, quanto pela própria indústria que continua oferecendo prazos apertados por conta da extrema pressão de público e de competitividade.

Eles possuem direitos como todos nós e mesmo escolhendo levar essa vida para seguir um sonho, não é motivo para agirmos com tanta falta de empatia e apenas exigir capítulos um atrás do outro. E lembrem-se: O Miura merece sim ser lembrado por seu trabalho em Berserk, obra que dedicou quase toda a sua vida, mas isso não quer dizer que devemos ignorar sua humanidade reduzindo-o a “e agora, cadê nosso final?”.

Kentaro Miura
©Kentaro Miura

Portanto, deixem nos comentários suas homenagens, se já acompanhavam Berserk ou até mesmo o que pensam diante de toda essa situação, porque é um assunto que deve ser debatido e refletido por todos nós.

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