Weekly Shōnen Jump: qual a situação atual da revista? A prometida terra do nunca.

Vitor Nascimento
(Redator de Notícias)
@ifusic
©Shueisha

Há 50 anos, no dia 1 de agosto de 1968, começou a ser publicada a revista Weekly Shōnen Jump. De propriedade da editora Shueisha, objetivava atingir o público masculino mais jovem. Vários mangás de sucesso foram serializadas nela ao longo dos anos; de lá saíram nomes como Dragon Ball, Naruto, Death Note, Bleach e Saint Seiya, tornando-se assim muito bem conhecida ao redor do mundo.

©Shueisha/Masashi Kishimoto

Um diferencial bem bacana da WSJ é que qualquer mangá, caso consiga escapar do cancelamento, costuma receber adaptação para anime. A maioria das outras editoras preferem dar essa regalia apenas às obras com rendimento muito alto.

Ela é a revista de mangás com maiores números de vendas do Japão, possuindo também uma das obras mais importantes (e rentáveis) da atualidade: One Piece. Entretanto, o sucesso não é garantido para qualquer mangá publicado nela. Muito pelo contrário: há uma constante luta pela sobrevivência internamente, na qual está presente a filosofia de se manterem vivas as obras com uma boa recepção e retorno financeiro satisfatório.

©Shueisha/Eiichiro Oda

Logicamente isso não é tão fácil de se obter. E é justamente por isso que grande parte dos mangás que lá estreiam a cada ano são cancelados precocemente. A maioria das pessoas não acompanha essa jornada semanalmente, conhecendo então boa parte dos nomes novos apenas após receberem adaptação para anime. O nosso objetivo aqui é justamente apresentar o quadro atual dessa tão influente revista.

Evitaremos falar sobre obras que ainda não se estabilizaram, pois elas podem ser canceladas a qualquer momento.

Noções Básicas do Funcionamento da Revista

A Weekly Shōnen Jump, assim como o nome sugere, é lançada semanalmente. Ela basicamente traz, em cada edição, um capítulo novo de cada obra do seu plantel. Às vezes, apresenta one shots, que são histórias pequenas com potencial para tornarem-se séries longas no futuro.

Existem algumas maneiras de estimar o estado de cada obra nela presente. Uma delas é acompanhar as Table of Contents (TOC’s) semanalmente. A TOC é diferente em cada edição, sendo basicamente um ranking baseado na satisfação editorial e popular de cada mangá. Ela é feita baseada na ordem de leitura da revista; por exemplo, se Black Clover estiver em primeiro lugar na TOC, significa que foi a primeira série na ordem da edição, ficando localizada, na revista, bem no início.

É um dado de fácil acesso, podendo ser encontrado facilmente pela internet. Através dela dá para deduzir quem está com uma recepção boa ou não. Quando um mangá está em boa situação, também é comum ele ganhar páginas coloridas e capas.

©Shueisha

Outra coisa bastante importante são as adaptações para anime. Elas servem primariamente para divulgar o mangá, e, consequentemente, aumentar sua popularidade.

Ademais, as obras, além dos lançamentos semanais na revista, recebem volumes compilando certa quantidade de capítulos. As estimativas de vendas das versões físicas desses volumes são divulgadas pela Oricon, sendo uma maneira eficiente para medir o desempenho comercial dos mangás.

©Oricon

Com a Ascenção dos meios tecnológicos, é natural que isso não seja limitado às vendas físicas. Já foi revelado que, atualmente, cerca de 30% do rendimento comercial de mangás da Shōnen Jump já é virtual.

Os Três Pilares

O título simbólico de pilar chega para uma obra quando ela chega a um certo patamar de importância. Para chegar nele é necessário, primeiramente, ter um nível de vendas altíssimo para os padrões da revista; ademais, deve ser um chamativo fundamental para a compra da Shōnen Jump.

Atualmente três obras possuem esse status: One Piece (em maior escala que os outros), Haikyuu e Boku no Hero. O primeiro é simplesmente o mangá com maior nível de vendas da história, tendo um anime em transmissão desde 1999. Já os outros dois possuem um nível de vendas semelhantes entre si. Apesar disso, eles não chegam nem a 25% do que o mangá de aventura com piratas do Eiichiro Oda vende.

©Shueisha/Eiichiro Oda

Haikyuu, do mangaká Haruichi Furudate, é um mangá de vôlei muito bem-sucedido. O anime teve três temporadas até o momento, ambas com uma ótima recepção. Ele é um caso interessante, pois seu público é composto majoritariamente por garotas. Mesmo sendo um shōnen em essência, a predominância de personagens homens incentiva as garotas a acompanha-lo, pois… bem… muitas delas gostam de shippar os personagens.

©Shueisha/Haruichi Furudate

Boku no Hero, de Horikoshi Kouhei, é um já famoso Battle Shōnen de super-heróis. Sua adaptação em anime recebeu três temporadas até o momento, já tendo virado um sucesso ao redor do mundo.

©Shueisha/Horikoshi Kouhei

Algo digno de nota é que Hunter x Hunter possui um nível de vendas cerca de duas vezes maior do que os dois. Além disso, é uma das histórias mais bem-elogiadas pela crítica dentro da revista. Então, porquê ele não é considerado um pilar? Simples, devido à sua instabilidade. O autor Togashi Yoshihiro é conhecido por entrar frequentemente em longos hiatos.

©Shueisha/Togashi Yoshihiro

Veteranos

Alguns mangás já estão estabilizados no plantel há um bom tempo. A maioria deles tem vendas satisfatórias e já tiveram alguma adaptação para anime.

Um deles é Shokugeki no Souma, lançado em 2012, que ultimamente vem sofrendo alguns probleminhas. O mangá de culinária, desenhado por Saeki Shun, conceituado por Tsukuda Yuuto e pratos idealizados por Morisaki Yuki, teve um início bem-explosivo na revista, alcançando vendas altas antes do anime. Isso devido à sua proposta bem original (orgasmos com comida), e à sua execução divertida e empolgante.

©Shueisha/Saeki Shun/Tsukuda Yuuto/Morisaki Yuki

Contudo, as vendas aumentaram pouco com a adaptação, mesmo depois de quatro temporadas. Além de não aumentarem, suas vendas físicas estão demostrando uma queda pequena e gradual. Suas posições nas TOC’s também estão bem baixas ultimamente. Apesar disso tudo, o mangá conseguiu um espaço entre os 10 mangás mais vendidos nos dados da oricon em 2017.

Um que, até pouco tempo atrás, poderia ser considerado um novato, é Black Clover, um Battle Shōnen de fantasia. Parece que foi ontem, mas já fazem 3 anos desde o seu lançamento. Apesar de agradar a muitos, o mangaká Tabata Yuki também desagradou com uma utilização constante de clichês. A adaptação para anime também afastou muita gente logo no início, além de não ter proporcionado um boost considerável nas vendas.

©Shueisha/Tabata Yuki

Provavelmente a Shueisha esperava dele um rendimento semelhante ao de Boku no Hero, mas não o conquistou com êxito. Não obstante a esse fato, suas vendas continuam satisfatórias, e não deve ser cancelado por enquanto.

Outro que se enquadra muito bem nessa categoria é o famoso mangá de comédia do Sorachi Hideaki. Isso mesmo, estamos falando de Gintama. A obra vem sendo publicada desde 2003, tendo mostrado um bom rendimento durante toda a sua extensão. Seu anime recebeu (e ainda recebe) várias temporadas, todas bem-avaliadas. Atualmente, encontra-se bem perto do final, que concluirá um longo ciclo dele dentro da revista. Ele é o mais velho da WSJ depois de One Piece e Hunter x Hunter.

©Shueisha/Sorachi Hideaki

Por fim, há Hinomaru Zumou, do mangaká Kawada. É um mangá de sumô, um tema realmente ainda não muito explorado. O curioso é que ele vem se mantendo na Shōnen Jump desde 2014 com vendas não muito boas. Em comparação com as outras obras aqui citadas, ele não é nenhum sucesso comercial, ficando bem-abaixo dos padrões da revista.

©Shueisha/Kawada

Ainda assim, ele já recebeu anuncio de anime, o qual começará a ser transmitido em outubro de 2018. Lembrando que esse aqui constitui-se como uma grande exceção ao que costuma acontecer na revista.

Novatos Promissores – 2016 e 2017

Enquadram-se, nessa categoria, aqueles mangás com pouco tempo de vida. Eles ainda não ganharam anime para impulsionar o marketing, porém, apresentam um bom potencial de vendas.

Iniciando com os lançados em 2016, temos o Ecchi + Harém + Sobrenatural Yuragi-sou no Yuuna-san. De autoria do Tadahiro Miura, apresenta um desempenho comercial ótimo para o gênero. Sua adaptação já foi anunciada, possibilitando, assim, um eventual aumento nas vendas. Ela está a cargo do estúdio Xebec, que já produziu várias obras semelhantes, inclusive To Love-Ru. Algumas pessoas consideram Yuuna-san o “sucessor espiritual” deste último.

©Shueisha/Tadahiro Miura

Prosseguindo, temos o Shōnen de Ação do Gotouge Kiyoharu, Kimetsu no Yaiba. Seu estilo de arte é bem diferente do comum, além de ter um ar um pouco mais dark em comparação à maioria das outras séries da Jump. No início suas vendas não eram nada demais, mas com o tempo conseguiu engatar bem. Caso sua adaptação para anime der certo (o que é quase certo, dado que será produzida pelo excelente estúdio Ufotable), talvez venha a passar até mesmo Black Clover.

©Shueisha/Gotouge Kiyoharu

Há outro nome que também é de 2016, mas este será explorado em um tópico específico. Digamos, por enquanto, que ele se encontra em um patamar diferente de importância.

Agora serão citadas as obras que começaram a ser serializadas no ano de 2017. Nesse, foram salvos do cancelamento três mangás: Bokutachi wa Benkyou ga Dekinai, Dr.Stone e Robot x Laserbean. O curioso aqui é a diferença do status de cada uma delas entre seu lançamento e atualmente.

No começo, o maior sucesso entre os três era o mangá de golfe Robot x Laserbean. Mesmo parecendo estranho, isso pode ser explicado de maneira bem simples: ele é do mesmo autor de Kuroko no Basket. Ele desfruta de uma fanbase extremamente fiel, alcançando ótimos números em sua estreia. Assim como Kuroko, RxL apela bastante para o público feminino.

©Shueisha/Fujimaki Tadatoshi

Já em segundo teríamos Dr. Stone, a outra obra de autores veteranos. Contando com o enredo composto por Inagaki Riichiro, conhecido pelo seu trabalho em Eyeshield 21; e com a belíssima arte do coreano Boichi, autor de Sun-Ken Rock, já era aguardado com certo fervor antes do seu lançamento. A proposta também é diferente, mais puxada para a ficção científica. Ele pode ser bem visto, até mesmo academicamente, devido às suas diversas curiosidades sobre química.

©Shueisha/Inagaki Riichiro

O mais “humilde” seria Bokutachi wa Benkyou ga Dekinai (ou We Never Nearn, como preferir). Advindo de um autor relativamente desconhecido, Tsutsui Taishi, a comédia romântica escolar teve um início bem morno comercialmente. A obra possui várias semelhanças com Nisekoi, uma romcom de bastante sucesso dentro da revista. Inclusive, o autor de WNL já chegou a fazer um spin-off desse último, chamado Magical Pâtissière Kosaki-chan.

Além disso, ela desagrada boa parte do público feminino pelos seus elementos de harém. Ainda assim, ela se manteve firme, mostrando-se uma obra divertida e cheia de personagens simpáticos.

Entretanto, com o passar do tempo, tudo isso mudou.

We Never Learn passou os outros dois, e hoje é o mais vendido entre os três. Isso foi acontecendo aos poucos, e de maneira bem gradual, o mangá foi conquistando o público.

©Shueisha/Tsutsui Taishi

Lembra do início explosivo de Robot? No final ele acabou não agradando tanto ao público, fato que acabou causando a estagnação das suas vendas. As posições nas TOC’s também são terríveis, o que deixa muitos apreensivos com um possível cancelamento. Talvez consiga sobreviver e obter uma adaptação, mas nunca se sabe. O indubitável é que sua situação está bastante instável, afinal, a obra é de um autor famoso, esperava-se mais dela.

Dr. Stone, entre os três, é o que usufrui de maior apoio editorial. Ele sempre pega posições altas nas TOC’s, já que, mesmo vendendo menos que Bokutachi, seu público é mais abrangente.

Isso tudo é um exemplo perfeito da dinamicidade da revista.

Update: Robot x Laserbeam acabou sendo cancelado na edição #30 de 2018.

The Promissed Neverland

E agora chegou o momento de falar dele: o mangá mais promissor da revista. Optei por guardar um tópico separado só para ele, pois conseguiu alcançar proporções excepcionalmente maiores que seus colegas.

Yakusoku no Neverland teve sua serialização iniciada no ano de 2016. Demizu Posuka é a responsável pela arte, enquanto Shirai Kaiu produz o roteiro. Ela começou com o pé direito ao executar algo importantíssimo para uma obra dar certo. Este algo é um início impactante.

©Shueisha/Demizu Posuka/Shirai Kaiu

Digamos que o primeiro capítulo de Neverland vai além de ser impactante, é chocante. Quebrou os padrões presentes no início de quase todas as obras da Jump. Mas logicamente só isso não basta, de que adianta soltar várias cenas fortes sem algo a mais por trás? Pois ele trouxe sim algo a mais: um enredo interessante, aliado a um roteiro bem-administrado e uma boa arte.

Sua recepção foi muito boa, tanto no Japão quanto no ocidente. E o que dizer quando batalhas intelectuais e situações extremamente tensas passam a acontecer frequentemente? Algumas pessoas já o comparam, até mesmo, a nomes como Shingeki no Kyojin e Death Note.

Ademais, seu público-alvo é bastante amplo. É uma história que consegue ser apreciada por quase todo mundo, tendo uma presença forte de mistério e suspense. Além disso, a protagonista é uma garota, atraindo também o público feminino.

©Shueisha/Demizu Posuka/Shirai Kaiu

A qualidade da obra vem sendo reconhecida também em forma de premiações. Ela venceu o 63º Shogakugan Manga Awards, foi indicada para o Manga Taisho Award de 2018 e ficou em primeiro lugar no ranking do Kono Manga ga Sugoi! 2018.

Tudo isso resultou em um enorme sucesso comercial. Mesmo sem anime, Neverland já é o quinto mangá que mais vende da Weekly Shōnen Jump, atrás apenas dos pilares e de Hunter x Hunter. Caso a adaptação dê certo (algo muito provável) pode virar um dos mangás de maior sucesso da atualidade e, quem sabe, da história.

Esse pode, talvez, ser o próximo megahit da indústria. Torçamos para que tudo dê certo, acarretando assim em mais um nome para “hall da fama” dessa enorma aventura chamada Shōnen Jump.

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